Aventuras na livraria ou Atravessando o Canal a nado

6 de outubro de 2010

L'Atalante, de Jean Vigo, 1934

Comprar livros é uma aventura e tanto. E sem perigo algum. Sem mosquitos, serpentes, tigres-de-bengala. Dia desses eu me aventurei em uma, dessas de shopping, mais à mão. Mandei uma mensagem pr’uma amiga: me diz aí um livro p’reu comprar. Ela titubeou e mandou duas indicações, já lidas. Oh, meu coração, não dá pra chegar aos quarenta e quatro sem ter lido Lavoura arcaica. O outro, não lembro mais, um Philip Roth, um Coetzee, enfim. Enfim. Depois, sabidinha, me aconselhou em tom de reprimenda: e nada de ficar paquerando na livraria. Pena. Naquele dia, as mulheres de virar a cabeça estavam pelos corredores do shopping, nenhuma, mísera, flanando entre uma estante e outra. Fazer o quê? Avistei duas, em especial. A primeira descendo a escada rolante: vestidinho preto, sandalinha baixa, cabelinho liso, e não se enganem com tantos diminutivos, tudo na moça era, senão superlativo, muito equilibrado. Uns olhos de meu deus, enfim. E basta pra resumir ou terei de me alongar pela boca macia e o nariz afilado. A outra. A outra foi também na escala rolante, desta vez em ascensão, e logo se encaminhou para o outro lado do balcão de pagamentos. Assim, de longe, avistei-a: cabelo chanel, negro como as asas da graúna ou as penas do corvo de Poe, uma bolsa estilosa nos ombros e um ar de quem estava perdida mas sabia onde se encontrar. Não, não, infelizmente não era ao meu lado mas na fila do crediário e ficamos por isso mesmo. Ela lá, eu cá. Todo esse blá-blá pra dizer que não, não estavam na livraria, essas duas lindas moças casadoiras, esses dois exemplos de como pode ser quente o Paraíso, essas florezinhas tatuadas – não falei? as duas exibiam cada qual uma tatuagem, de fada, bicho, espanto. E por não estarem, me deixaram mais à vontade e concentrado entre um livro e outro, uma capa e outra, uma contracapa, outra. Na livraria. Entre as estantes. De cara, dei de cara com o Diário do hospício e O cemitério dos vivos, do Lima Barreto. Que eu esperava já há alguns dias e não sei nem bem porquê. Talvez por um acesso de loucura que sempre me acomete. Ali pelas nove e vinte e três da manhã ou às onze e cinco da noite. Não necessariamente com tanta pontualidade mas. Depois, dei com os olhos numa antologia de contos inspiradas nas letras do Chico – Buarque, claro, que o Chico é o Chico. E não vou nem deitar o malho no Chico romancista como a maioria dos sabidinhos de plantão. Li apenas o Estorvo, anos atrás, e não me caiu mal, não. Passei a mão nesse também, não pra mim, como o Lima – Barreto, o que não é tão claro – mas para uma amiga que fez aniversário e eu não fui pra festa porque estava na Pipa e isso – é claro – é outra história que não perco a mania de me dispersar. Noutra gôndola – assim, propósito, supermarket –, encontrei um grego que mora em Londres e escreveu uns livros que as orelhas me recomendam, mas, claro, puro marketing, supermarketing. Paquerei um tantinho com o grego mas não dá pra se aventurar tanto numa selva de gatos e lebres. E me dei por satisfeito com esses dois, mais um pra minha filha, que adora ler e quem sou eu pra cortar o barato dela. Foi na sacola também. À noite – e isso também nada tem a ver com o narrado – assisti um filme sobre um adolescente curdo que insistiu e teimou em atravessar o Canal da Mancha pra encontrar a namorada em Londres. Do lado de cá do Canal, o professor francês de natação, recém-separado, se indignou consigo mesmo e falou pra ex-mulher: e eu, que não consegui nem atravessar a rua pra tentar te reconquistar.

La natation par Jean Taris champion de France, de Jean Vigo, 1931

Um Já Comentou para “Aventuras na livraria ou Atravessando o Canal a nado”

  1. Larissa Gabrielle Araújo disse:

    Essa sua amiga, einh?! Não sei, não. Adivinha?! Qualquer dia ela aparece pro Café da Manhã dançando um tango sem avisar. Coitada… ¬¬

Deixe um Comentário