Até tu

13 de fevereiro de 2010

Meu carnaval devia ser um sossego só.

Pensei em ir ao cinema, quando cinema decente houvesse, em ler um monte de livros – que não faltam –, em assistir uma penca de filmes em DVD. No mais, dormir quando sentisse sono, comer quando sentisse fome, beber quando me desse na telha. Ou, tudo misturado, que afinal é carnaval.

O projeto inicial começou a dar água quando me vi pensando, também, em atender dois ou três convites que me fizeram para os tais dias de Momo: Diógenes da Cunha Lima, para um galo atlântico na beira-mar de Pirangi, em excelente companhia, que inclui o próprio, Nei Leandro (de Castro) e Sanderson Negreiros; Alex Medeiros, urbanóide convicto, para uma cerveja e acepipes na Capital, também na boa companhia do poeta Adriano de Sousa; e Vicente Serejo, eterno pastorador dos mares da Redinha, que mui bem sabe receber, graças, é claro e também, a Rejane Cardoso.

Enfim. Recebi até – e acreditem – convite para ir curtir os alísios da famosa (e famigerada) República de Jacumã. Mas isso é outra história que não cabe, no momento, aqui.

O que não cabe, no entanto, é tanto evento social num carnaval que se pretendia do sossego.

Isso, porque, alongando minha lista de não-lidos, ajuntei mais dois que o vício e algum crédito ainda em conta me permitiram: História da polidez, de Fredéric Rouvillois (Grua Livros, 2009), e A nuvem, de Sebastião Nery (Geração Editorial, 2009).

Do primeiro falo outro dia. Do segundo, agora, claro, que se falei que um era para um dia além, o outro há de ser, por força, para o dia de hoje.

Então. Não sou muito fã de livros de e sobre jornalistas, quanto menos brasileiros. Fazer o quê? Mentir pra vocês não vou. Mas as 622 páginas de A nuvem (que tem como subtítulo o que ficou do que passou e de didascália 50 anos de História do Brasil) foram tomando meu tempo entre as prateleiras da biblioteca local, digo, da livraria da moda, e eu terminei me deixando convencer quando li, página 423, uma historinha saborosa, que vou tentar reproduzir mais ou menos na íntegra, ao menos nas falas: estava o jornalista na casa de Jânio Quadros acompanhado de uma turma (que incluía José Aparecido de Oliveira), quando, hora do almoço, Dona Eloá se avizinha e segreda algo no ouvido do marido. Jânio fica desesperado e exclama:

– Muriçoca! Muriçoca morreu!

Era a cadelinha. Todos correm ao jardim, o ex-presidente na frente. Dona Eloá tenta acalmá-lo:

– Jânio, temos outros cães no jardim. Ela foi, os outros ficaram.

– Cães, Eloá! Cães há muitos, eu o sei. Mas a Muriçoca era única. E não porque a rainha Elizabeth m’a deu. Quando me cassaram, quando o algoz fardado caiu sobre mim, todos me abandonaram, Eloá, até tu. E tu também, Aparecido. Até tu. Só a Muriçoca me acompanhou na solidão e na dor.

Como eu, com a graça benfazeja de deus, não tenho nem uma Muriçoca que acuda de mim, resta o consolo dos amigos, que, não, não, definitivamente não me abandonaram neste carnaval e insistem em me acompanhar no que ainda me resta de solidão. Quanto à dor, prefiro nem falar. Muito desassossego para um carnaval.

2 Já Comentaram para “Até tu”

  1. kolberg disse:

    Carnaval. Amigos. Cães. Sugiro acrescentar mais um amigo a permanecer ao seu lado nesses dias de Momo. Um bom ‘cachorro engarrafado’, como diria o poetinha.

  2. Patricia disse:

    Esqueceu do convite pra ir à Pipa…e dava até pra ler,comer,ver filmes e beber…

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