Até que a morte, literalmente, nos separe

12 de maio de 2010

Scarlett Johansson incorpora uma Cinderela nada básica para o olhar nada básico de Annie Leibovitz

E lá vem o The Guardian com uma nova notícia a respeito do matrimônio.

Moda vem, moda vai, casamento é sempre notícia.

Separação, também, mas vamos deixar os noivos sonharem com uma vida cor-de-rosa debaixo do edredom com motivos florais, antes de o cotidiano banalizar os beijinhos de despedida matinal e reencontro noturno, a margarina azedar o café-da-manhã, o silêncio pairar sobre o jantar e tudo se acabar nos tribunais feito uma quarta-feira de cinzas ingrata.

Pois, informa o jornal, bravos pesquisadores dinamarqueses – na falta de podres no reino e de índices gritantes de mortalidade infantil, analfabetismo e casos de dengue, essas coisas africanas, enfim – debruçaram-se sobre a vida conjugal de dois milhões de casais.

Dois milhões de casais…

O resultado foi o seguinte, pra ir logo pros finalmente, que a fila, como se sabe, anda:

– Casar com um homem mais velho diminui o tempo de vida de uma mulher, mas ter um marido mais jovem é pior ainda.

Ou seja: casamento é bom negócio pros homens.

Mau negócio pras mulheres.

E ponto.

Já se sabia – sempre através de pesquisas anteriores, que o lance é todo muito bem analisado – que os homens vivem mais se tiverem uma mulher mais jovem.

(Vivem mais e melhor, pensam alguns, mas, covardes, não o dizem em voz alta.)

Mais ou menos o que Amelinha cantava, quem sabe olhando com o rabo do olho pra silhueta exótica de José Ramalho da Paraíba, deitado na rede:

Mulher nova, bonita e carinhosa, faz o homem gemer sem sentir dor.

Daí os cientistas – dinamarqueses, alemães, esse povo loiro, enfim, que não tem a menor idéia onde fica o brejo paraibano – matutaram, matutaram e se perguntaram: será a recíproca verdadeira?

Pois não é, madames e mademoiselles. Não é.

E pior: quanto maior a diferença de idade entre uma dama e seu marido, menor vai ser a expectativa de vida da mulher, independente se o cafuçu é mais velho ou mais novo.

(Fudeu – pensaram desta vez algumas, sem coragem de blasfemar em alta voz, que, educação teu nome é mulher.)

Mas a natureza é mesmo ingrata, senhoras, senhoritas, debutantes: um homem sete, oito ou nove anos mais velho do que sua esposa apresenta uma taxa de mortalidade 11% menor do que um homem cuja senhora tem a mesma idade. Em contrapartida, a taxa de mortalidade para uma mulher sete, oito ou nove anos mais velha do que o marido é 20% maior do que se ela se amancebasse com um varão da mesma idade.

Ao contrário da maioria dos cônjuges, os números não mentem – mas, qual seria a explicação para tamanha diferença? Não se sabe. Sven Drefahl, do Instituto Max Planck de pesquisas demográficas de Rosktock, Alemanha, diante desses resultados, prefere estudar melhor os casos (afinal, com tantas consoantes assim, não fica bem atirar pitacos pra lá e pra cá).

Adianta apenas algumas hipóteses, Mr. Drefahl, de Planck, Rosktock. Uma, que ter um parceiro mais jovem beneficiaria principalmente os machos, porque, como estes tendem a ser mais solitários na velhice, ter uma mulherzinha de lado, para cuidar, dar banho, cafuné etc., enfim, precisa nem explicar. Já as mulheres são muito mais independentes e tendem a construir uma terceira idade com muitas amigas, vida social intensa e barará – e ter um companheiro mais novo não vai nem vem. Aliás, ter um parceiro mais novo é só dor de cabeça: como a sociedade não vê com bons olhos mulheres velhas com jovens mancebos, o estresse é constante.

Isso diz a pesquisa. Que não comenta outro problema implícito na equação: se é esperado que o marido mais novo cuide da esposa mais velha, no final das contas é ela mesma quem tem que ter cuidado, muito cuidado, extremo cuidado, dangerous, alerta vermelho, especialmente com o bando de mulheres soltas e solteiras, doidas pra casar.

E nem aí com o risco mortal que é – agora cientificamente comprovado – todo e qualquer matrimônio.

2 Já Comentaram para “Até que a morte, literalmente, nos separe”

  1. soraia disse:

    apesar do respeito pelas pesquisas (parte da minha sobrevivência), desconfio dessas pretensamente generalizantes que não levam em conta diferenças culturais, referências sociais, relações de poder, fantasias individuais e utopias, por exemplo…estão pesquisando cada coisa! uma necessidade crescente de “biologizar” os afetos e as relações sociais, como se isso fosse capaz de nos redimir dos “fracassos”, “fugas” e “fragilidades” das relações de afeto ou desencantamento. hoje já existem formas tão diferentes do casamento tradicional que esse tipo de pesquisa parece já “nascer” ultrapassada.

  2. Jarbas Martins disse:

    lá no sertão, mario ivo, onde nasci e viajei, em épocas transatas, sucedia às vezes que era a vida e não a morte que separava os casais. colecionei algumas dessas histórias em que, de repente, sabe-se lá porque o marido sumia, sem deixar nenhuma explicação. perdia-se pelas estradas e veredas da vida sem deixar rastros. o roteiro da cena não tinha muita imaginação não. o marido dizia à mulher que ia na venda comprar gás (querosene) e pronto: e a mulher, feito uma penélope sem nenhum glamour, ficava anos, décadas, lustros, como dizia minha tia Zefa, esperando. ela, os filhos, sem nenhum pretendente, sem bens nem bolsa-família, que ainda não tinham inventado lula.os velhos udenistas botavam culpa no psd, pois o preço da liberdade era a eterna vigilância e etc etc. a culpa, de uma forma geral, era atribuída ao demônio.a igreja progressista acusava o latifúndio, uma pequena parte da população dizia que era o sol a causa dessas loucuras.eu, que nos começos dos anos setenta, militante de uma sigla famosa, a ap (ação popular), andava meio disfarçado,
    pelos grotões do nosso estado, explicava tudo através do livro vermelho de mao tsé tung. o da estratégia política das cem flores. um verso de maiakóvski – camarada vida vamos apresse o passo- me separou do meu primeiro e talvez único amor.

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