“Asterio Polyp, thanx”

16 de dezembro de 2011

David Mazzucchelli

Você sabe que já conheceu dias melhores – em verdade noites melhores, em verdade madrugadas melhores – quando o garção, ou seu preposto, um tipo gordinho e suado, deposita sobre a mesa três copos tipo geléia-de-mocotó-Colombo cheios de um vinho escuro e licoroso (e que depois descobrirá dulcífico demais).

Você sabe que chegou ao fundo do poço – em verdade fim do mundo, em verdade fim da estrada – quando vislumbra, em cada um deles, flutuando, boiando, galeando, uma pedrinha de gelo médio formato, única coisa semitransparente a brilhar, a tilintar, a contar carneirinhos no breu da noite, madrugada, fim do mundo, fim do poço, beira de estrada.

Você sabe que nem tudo está perdido quando, de um automóvel, lá longe, desce moça, impávida, sem reticências o seu andar atento e forte no rumo do braseiro onde os churrascos tipo felidae ardem em brasa, mora. Pergunta de cigarros. A churrasqueira, uma tipa gordinha e suada, indica com o dedo lugar possível, o braço voleando no ar, exibindo sovaco por fazer, e a moça, impávida, sem reticências retorna seu andar forte e atento no rumo do automóvel onde olhos brilhantes e curiosos a esperam.

Você sabe que tudo está perdido quando da mesa vizinha sopra que nem odor nauseabundo ao vento uma conversa inspiradora de medos. E Fulano de Tal? Preso. Pausa pra bebericar a cerveja aparentemente gelada. Matou dois na Zona Norte, polícia parou numa blitz, deu flagrante. Pausa pra acender cigarro do maço amassado. Brincadeira. Fulano não é capaz de matar uma mosca. Mas a imagem de Fulano, assassino serial a soldo e cano quentes, já se formou na noite, digo, madrugada escura, ajudando a derreter um pouco mais o cubinho de gelo do copo da esquerda, depois o da direita, por fim o do meio, numa sinfonia visual de detalhes.

Você sabe que tudo está, sim, definitivamente perdido, irremediavelmente perdido, quando novos copos chegam à mesa – ainda no geléia-Colombo-style – acompanhados de O inconfundível cheiro de baratas. Assim. No singular-plural. Boca da garrafa, pois. E muita reza e dar de ombros, porque a noite, porque a beira de estrada, porque o posto de gasolina mergulhado em sombras temerosas, porque as nuvens no céu aberto, porque o canteiro de obras abandonado, porque o fundo do poço e a pouca luz no fim do túnel, por quê.

É muito dezembro pra pouco dezembro, pensou.

Refresh, uma porra, pensou.

A arte de não escrever, pensou.

Três dias antes, três dias depois, cavalo alado branco, pensou, relembrando as moedas do I Ching.

Conta-gotas. Surrupiando isqueiros. Dois, três, no fundo do bolso. Um verde, um amarelo, um grená, numa sinfonia de cores e plástico.

Você sabe que – não, você não sabe nada, mas se dá conta que os porres são homéricos porque voltar pra casa é uma odisséia eterna e a cegueira a única forma de visão possível.

Um Já Comentou para ““Asterio Polyp, thanx””

  1. soraia disse:

    como sempre, uma ótima surpresa,nas minhas passadas por aqui. enquanto lia me lembrei do filme bagdad café, e sequer faço ideia do por que.

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