As melhores amizades

20 de julho de 2010

Nunca na história deste país inventaram tantos dias comemorativos. É dia do rock, da mulher, da sogra, ainda hão de inventar o dia da compota em calda, de preferência em mês distinto daquele em que se festeja a uva-passa, pra não ter perigo de confundir. Hoje, por exemplo, criaram o dia do amigo. Hoje, não, mas suponho que dia desses, não lembro da data ano que passou. E só faz um ano.

Pois, isso.

Dia do amigo.

Hoje.

Não liguei pra nenhum deles, não porque não os tenha, simplesmente porque amigo, amigo, de verdade, é feito de silêncios mais que palavras.

E se o leitor, a leitora, já pensa em desistir de prosseguir leitura, temendo – com toda a razão – que venha um arrazoado de lugares-comuns e filosofia de banheiro de boteco às quatro e vinte e cinco da manhã, prometo esforçar-me para não seguir triste destino.

Já dizia o senhor Maquiavel que é preferível manter os amigos próximos e os inimigos mais próximos ainda. Não foi Maquiavel? Hum. Shakespeare? Oscar Wilde? Desisto. Enfim, qualquer um desses de fama mais antiga que a última Lady Gaga.

O fato é que é a pura verdade – se é que a verdade comunga com a pureza, acho que não, mas, vamos lá. Não há o que se preocupar com os amigos – eles estão aí pra isso mesmo: pra sumirmos durante dias, meses, décadas, e pra nos receber de braços e orelhas abertas quando retornamos, semanas, anos, séculos depois. Amigo que é amigo desconhece relógios e calendários – a não ser para se tornar, como os vinhos e o passar dos anos, ainda melhor, melhores amigos. (Minha santa pieguice entronizada: comparar vinho e amizade é de uma pobreza franciscana. Perdão. De coração.)

Já os inimigos, meninos, meninas, atentos, atentas a eles. A lógica é lógica, pois: evita-se, assim, as más surpresas. Ademais – péssimo esse ademais, mas vamos lá, digo, aqui: ademais, manter os inimigos pertinho é como ter uma academia de ginástica em casa – além de tonificar os músculos, nos mantemos sempre em forma. Etc. etc.

(Já os amigos – atenção, minha amigas, a esse parêntese – são como ter uma massagista em casa, sempre prontas a um gel nos pés cansados e um cafuné no couro cabeludo. Na metáfora ou na real.)

Outra besteirinha quando o assunto é amizade é a recomendação popular de que melhores amigos não fazem negócios. Seria, então, espécie de premissa para a arte da amizade, os tais negócios à parte. Sei não. Se o negócio se limitar à conta em mesa de bar, acho que é mais que justo. Até pagar a conta toda, que para isso existe, pois, dinheiro. E amigos, na ausência do numerário.

Aliás, amigo é uma coisa, amizade é outra. E com esta, concluímos a última metáfora desta noite esplendorosa, a noite do dia do amigo:

Amigo é um beco com incontáveis saídas. Amizade é uma avenida larga com mão, contramão e mil e uma conexões para todas as estradas, todos os destinos do mundo, onde sempre haverá um amigo nos esperando. Inda que afobado:

– Caralho, que demora da porra é essa!? Vai te fuder, próxima vez não espero mais.

E viva o dia da uva-passa.

Um Já Comentou para “As melhores amizades”

  1. Jarbas Martins disse:

    Estampa fina a tua crônica, meu caro nada ledo Ivo. Falar em estampa, por que não o Dia da Estampa Eucalol ? Em Angicos, no ano da graça de mil novecentos e cinquenta e cinco, pra beijar uma prima tive que me desfazer da minha coleção de estampas.Não sei se valeu a pena.O beijo da prima era mais seco que o rio Pataxó; não nos pegaram nesse ato pecaminoso nem bolos de palmatória ganhamos da minha tia.
    E viva o dia da uva-passa.

Deixe um Comentário