Antes, o verão acabava em chuva

1 de fevereiro de 2011

Roy Lichtenstein, Kiss V

Antes, o verão acabava em chuva. E chovia na última caminhada do veraneio. Porque todos nós. Porque todos nós sentíamos a necessidade premente de se despedir da praia, se despedir do mar, se despedir dos rochedos escuros talhados pela maresia e pelo vento, sentinelas do horizonte. Sem fim. E chovia. E não vou falar que a chuva apagava nossas pegadas na areia porque senão isso aqui descamba pra pieguice desavergonhada. Mas. Findar o verão era ainda mais ameaçador quando se sabia o inevitável voltar às aulas, ali, nos calcanhares. Premente. Os livros novos, os cadernos imaculados, alento e maldição. Ao mesmo tempo. De uma só vez. Findar o verão era ainda mais desestimulante porque nunca, nunca, vou dizer o quê? tínhamos conseguido beijar a garota. A cada verão era uma nova garota, com os mesmos cabelos loiros da anterior, com a mesma pele bronzeada do verão passado, com os mesmos olhos verdes daquela que nos tirou o sono no último luau, com a mesma cabeleira cor de ébano – ai, meu deus, isso sim é piegas – daquela de quem nem chegamos perto, porque. Porque. Porque era sempre outro cara quem chegava perto. E nós, nós éramos aqueles que ficavam de lado, os que bebiam mais, os que davam vexame, os que se embriagavam contando estrelas e paixões feitas de poeira de estrelas. Os que amavam mais. E os que ouviam música. Os que ouviam, então, falo dos anos setenta, Supertramp e coisas do gênero, número, grau. Os que prometiam, ao som de Hide In Your Shell, que, sim, no próximo verão seria diferente, porque o ano todo passaria até que víssemos, novamente, garotas como aquelas, aquelas que não nos viam, que não tocavam nossa mão, que não dançavam coladinho, que não sorririam para nós, porque os outros, ah, os outros, filhos da puta, os outros sempre beijavam a garota que não conseguimos beijar. Então, antes, o verão acabava em chuva. E chovia na última caminhada do veraneio. E de repente estávamos em sala de aula. E na sala de aula, de repente, porque o ano era novo, realmente novo e tal, despontava numa das carteiras uma moça como a do verão passado. Com os cabelos loiros e os olhos azuis, com os cabelos castanhos e os olhos idem, com os cabelos negros e os cílios tímidos, e todas elas com aquele jeito inconfundível e sensual de segurar o caderno de encontro ao peito, e sim, e de repente, elas também voltavam a pé pra casa e tínhamos então uma chance a mais de prolongar a aula, e esse era o momento mais delicioso do dia, porque as perspectivas eram imensas, as possibilidades infinitas, o verão não mais importava. E então continuamos a beber mais que os outros, a dar mais vexame que os outros, a se embriagar de céus e constelações, a ouvir música, tanto quanto os outros, mas quem se importava? porque aprendemos também a nos fazer enxergar pelas melhores garotas, a pegar na mão das melhores garotas, a dançar coladinho, a traficar sorrisos, e sim, até, filhos da puta, falo dos outros, me desculpem, a beijar a garota, que eles agora, nem. Então, antes, o verão continuava findando em chuva, mas quem se importava agora com a chuva? Quem se importava com as estações? As garotas estavam ali, debaixo da chuva e elas precisavam de alguém, como nós, os que amavam mais, os que bebiam mais, os que traficavam mais, os que podiam até nem dançar mas sabiam ficar ali, agarradinhos, então, essas meninas, pobres meninas, de cabelos ora curtos e cintura fina e sexo úmido, elas precisavam de alguém que as protegessem da chuva, alguém que, num abraço, as tirassem da chuva. As abrigassem, as ninassem, as beijassem. Ah, mas então, vieram novos verões, sempre acabando em chuva, e chegou a nossa vez, então, de ficar na chuva. Porque as meninas, sim, elas nos tinham beijado, sim, ela nos tinham tocado os cabelos, sim, elas nos tinham secado as lágrimas, sim. E elas começaram, então, a nos ensinar. Que, por mais estranho que parecesse, por mais paradoxal que fosse, o amor podia acabar,  também, como o verão, como a chuva, num beijo.

7 Já Comentaram para “Antes, o verão acabava em chuva”

  1. [...] This post was mentioned on Twitter by Larissa Gabrielle, mario ivo cavalcanti. mario ivo cavalcanti said: http://migre.me/3N1D3 fim do verão [...]

  2. Luana disse:

    Eu queria ler suas crônicas em papel impresso…

  3. soraia disse:

    leitura obrigatória para meninos e meninas e cada qual que se ache nessa crônica. ela me fez local.

  4. kolberg disse:

    Texto para ler e guardar. A menção a melancólica canção Hide In Your Shell fez lembrar os Even In The Quietest Moments dos velhos veraneios. Já o beijo, encerrando o verão, seria Famous Last Words.

  5. Carito disse:

    nessa nossa adolescência pirangiana-byroniana eu dizia que hide in your shell era a música do meu enterro…

  6. giulia disse:

    muito linda essa “vingança”
    para mostrar q “everything is possible!”
    :)

  7. gracita disse:

    impossivel falar de veraõ e chuva e eu ficar anônima do outro lado da tela.lindo texto.mario ivo.(tou de volta,depois da chuva,depoi do tango.rs.bj)

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