Anne H., Dilma R. e algumas coisas impossíveis

1 de novembro de 2010

Anne H., agá de Hathaway

O ser humano é mesmo excepcional, imprevisível, capaz de superar os mais etc. etc.: o resultado do segundo turno das eleições presidenciais rolando e tudo que eu consigo pensar é em Anne Hathaway em Havoc (no Brasil, Garotas sem rumo, 2005). Só porque acabei de rever a Alice de Tim Burton, onde Anne H. é a Rainha Branca, toda trejeitos dramáticos nas mãos e unhas pintadas do mais puro breu. Ah. Mas não é das mãos de Anne H. que eu quero falar. É da boca, carnuda, bocão, dos dentes alvos e do nariz pronunciado. Mulher bonita sem narigão perde noventa por cento da graça e beleza. Tenho dito. Ou não. E se não, digo agora. Por isso as italianas etc. A Rainha Branca de Burton é simpática, divertida, extravagante, mas sem um pingo de sensualidade. Ok, tem uma gota aqui e outra ali, pingadas nas pontas dos dedos, por trás da orelhinha, de, sim, malícia. E a malícia, como se sabe, é a entrada, antipasto, bruschetta, para algo mais caliente, fogoso, carnal, sensual e sexual, seja em que língua for, que o amor, como diz Alex Medeiros, é foda, e a foda, digo eu, não tem fronteiras e dispensa passaporte. Já a garota sem rumo de Havoc passa por cima dos aperitivos e canapés e vai direto ao prato principal: Anne H. é uma patricinha doida pra perder as estribeiras e entrar pro mundo dos rappers latinos de Los Angeles, L.A. Uma daquelas que passam na sua frente e não tem como não dar ouvidos pro diabinho machista soprando o comentário politicamente incorreto, mas, sim, muito justo e correto: “Ah, essa eu comia” e tal. Tem uma cena onde Anne H. se exibe pra um coleguinha videomaker que fica ali, quicando no limite entre a sensualidade e a putaria, coisa inimaginável em filme hollywoodiano e ainda mais protagonizada por uma bonequinha como Anne H., que antes já tinha filmado dois O diário da princesa e só no ano seguinte estrelaria O diabo veste Prada. Pois bem, se você é homem e não tem vergonha de ficar excitado vendo mulher bonita, tome o rumo da locadora mais próxima e assista Havoc.

Enquanto isso, votos computados e tudo mais, televisores ligados, twitters de plantão, vão pipocando aqui e ali uns poucos comentários sugerindo que Dilma Rousseff, a-primeira-presidenta-do-Brasil, deveria vestir saia no dia de sua posse ou por ocasião do primeiro-pronunciamento-à-nação. Oh, meu bom deus inexistente, cujo nome foi tão proferido em vão ontem, hoje e sempre. Que papo mais atrasado esse. Sobre saias e não-saias, calças curtas ou compridas, meias soquete ou arrastão. E eu, que tinha acabado de rever Alice no país das maravilhas e ainda trazia fresca na memória a cena onde a jovem Alice, pois não, pois sim, na versão de Burton para o clássico de Carroll, bailando com o seu pretendente noivo, escandaliza o garção ao revelar sua fantástica imaginação: num flash, baile rolando, imagina que as mulheres usavam calças e os homens vestidos. O jovem, almofadinha, pedante e ridículo, censura-a: deve guardar essas visões para ela mesma e, na dúvida, ficar em silêncio. O baile continua e Alice, distraída. “Em que está pensando?”, pergunta o noivo. “Em como seria voar”, responde Alice. O chato insiste: “Por que gasta seu tempo pensando em algo impossível?” “Por que não?”, retruca Alice, “papai dizia que pensava em seis coisas impossíveis antes do café da manhã”.

Pois, até pouco tempo, uma dessas coisas impossíveis seria uma mulher – de saias, calças curtas, ceroulas ou saruel, não importa – ser presidente do Brasil. Dois séculos separam o conselho do pai de Alice do conselho da nova presidenta aos pais brasileiros:

Gostaria muito que os pais e mães de meninas olhassem hoje nos olhos delas, e lhes dissessem: Sim, a mulher pode!

A outra, bom, outra dessas coisas impossíveis é assunto meu, meu e da senhorita Anne H. sobre a qual prefiro guardar respeitoso e discreto silêncio, beleza?

Então, valeu, o baile continua, a música idem, só os pares não são mais os mesmos.

E claro que eu nem preciso ajuntar o “graças-a-deus” que a campanha acabou e.

Etc.

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