Ainda domingo

19 de julho de 2010

Quem não chora não mama, diz o ditado. E o bebê no colo da mãe.

Pois. Eu.

Tanto reclamei do domingo que pouco depois da hora regulamentar do meio do dia me cai dos céus sacra companhia para uma botelha de vinho que, logo, milagrosamente – sim, eu acredito em milagres –, converteu-se em duas e entrou pela noite, adentro, afora, com direito a uns comes também, que nem só de bebes vive o homem.

Mas andei especulando, inda, sobre as agruras do domingo. Que não são poucas.

Por exemplo, algumas considerações:

O domingo é a ressaca às avessas da segunda. Estilo de volta para o futuro, todo o sortilégio que o primeiro dia laboral da semana tem, como fama, é culpa do domingo precedente. É ele quem nos despeja em plena segunda-feira só o bagaço, restos, fadiga e desespero. Prova? Não há nada no imaginário popular contra as terças-feiras.

Em domingo não nasce flor. Verdade absoluta. Não há evidência científica do caso, na botânica, como não há vida em outros planetas, muito menos em Marte. E marcianos.

A única redenção para o domingo são os braços das amigas. Nenhuma alusão sexual à afirmativa, vos garanto. Até porque, como se verá mais abaixo, o domingo é assexuado. Mas as amizades, ao contrário dos amores, nos salvam, efetivamente. Também não há nenhum sexismo: enfatizo os braços das amigas porque, convenhamos, têm bem menos pêlos do que os dos amigos.

Domingo é a repartição pública da semana. Às moscas, pois. E, mesmo que lotadas, pois: excesso de burocracia, falta de atenção, zelo. Muito trabalho por nada. Pouco ócio por coisa alguma.

O domingo é mau-caráter. Já viu um domingo boa-pinta por aí? Ah, sim, claro que sim. Mas quem disse que boas-pintas têm bons caracteres? Então.

Domingo, uma pinóia. Isso.

Todo domingo é pardo. Não vou nem explicar. Entendam o que quiserem que o assunto cor é sempre pêlo no ovo.

Em domingo não crescem arco-íris. Variação para o Em domingo não nasce flor. Verdade, pois.

O domingo tem 12 horas. Todas terrivelmente iguais.

As noites de domingo têm pressa. Em se arrastar.

O domingo, todo ele, é um eufemismo.

Em domingo os amores fenecem.

As segundas são velórios, mas o enterro é no domingo. Mais uma assertiva comprovando a ressaca às avessas da segunda. Ou seja:

O domingo troca os pés pelas mãos.

Em domingo se perde jogo. Se prende o dedo na porta. Se esquece as chaves do lado de dentro.

Ninguém goza aos domingos. Domingo, nem punheta. Variação: Nóis sofre aos domingos, mas nóis não goza.

Em domingo não se lê Camões.

O domingo é um cão atropelado, uma mosca na sopa, pão dormido, saco de cola.

Em domingo não se usa camisa amarela. Nem calça listrada.

Por aí.

2 Já Comentaram para “Ainda domingo”

  1. Jarbas Martins disse:

    dedo minguinho

  2. Larissa Gabrielle Araújo disse:

    era domingo, pé de cachimbo!

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