Agradecemos a gentileza

6 de agosto de 2011

O melhor café-da-manhã de Natal, já disse – e se não, pouco importa, digo agora, amanhã, não sei – está na City Pão, Rua João Pessoa, Centro. Nem tanto pela excelência da culinária, apresso-me em esclarecer, mas pelo ambiente. E pelas pessoas. Os habitués do lugar. As meninas da Riachuelo estão sempre lá. As de outras lojas menos famosas, também. O melhor horário é antes das oito, nos dias da semana. Hoje, como em todo sábado, pode-se chegar mais tarde que sempre gente diferente há de se ver. Hoje, por exemplo – ou nem tão exemplo assim – tinha um grupinho de quatro, todas da Riachuelo. Uma irmandade. Estilo. Nem feias, nem bonitas, nem falantes, nem silenciosas. Nem descrentes, nem crentes. Estavam ali porque dali a pouco iam trabalhar e pegar no pesado requer uma dose de cafeína, uma torrada com queijo ou pão assado com ovo e queijo de coalho. Uma delas tinha um relógio masculino dourado no pulso. As meninas acreditavam no amanhã, talvez. Porque amanhã, domingo, quem sabe praia, urbana, suburbana, um namoro, um paquera, acenos do futuro melhor.

Hoje, sábado, lá estava eu. Minha terapia própria. Na parede de cerâmicas mais ou menos brancas, o cartaz: “Atenção. Comunicamos que atendimento só no balcão. Agradecemos a gentileza.” O rapaz entroncado, célere nos demais dias quando lá aporto antes das oito, hoje estava… quase zen. Esfregava um paninho miúdo nos vidros das gôndolas, borrifava um líquido qualquer, antes, e toque a esfregar, a esfregar, depois. Outro, diligente, sem ser chamado, surgia vez em quando por entre as mesas e também tascava seu paninho. Conheço poucos restaurantes que fazem o mesmo.

Também conheço poucos restaurantes tão caóticos, nem tanto pela disposição das mesas, todas fincadas no chão, mas por esse excesso de cerâmicas e rejuntes cinzas espalhados por toda a parte. Um vão só, profundo, sentando nas últimas mesas o cliente há de contemplar um pedaço da rua emoldurado por um quadrado imperfeito e as pessoas mais próximas à entrada todas em contraluz. Surreal. Tanto, quanto a gentileza das mocinhas que atendem. Um terço de educação, um terço de rispidez, mais um terço de loteria: a de hoje, por exemplo (que saco, esses exemplos), foi antipática, seca e dura, até o momento em que acenei um cafezinho e me perguntou toda – ou quase toda – derretida se poderia anotar na comanda a despesa extra.

É claro, meu bem. Não, não falei. Estava mais entretido em desvendar como o casal da mesa ao lado conseguia superar o italiano do Veneto, dele, com o português – irreconhecível enquanto origem geográfica – dela. Cada qual montado em sua própria língua, no entanto, pareciam se dar bem. Ah, o amor sem fronteiras.

Sei que ela perguntou como ele conseguia ter ombros tão largos, costas tão fortes, mas não ouvi a resposta porque outro rapaz entrou desviando atenção. Seria politicamente incorreto descrevê-lo como uma “bichinha marombada”? Pois, já disse. Óculos dourados, camiseta apertadinha, cabelo de corte… sei lá… diferente. Afetada. Entediada. Deve ter tomado todas na noite anterior e, claro, como as mocinhas da Riachuelo, precisava reforços alimentares. Eu também. Além dos reforços alimentares, precisava dessa autoterapia, auto-ajuda que só o City Pão me oferece nas manhãs insones.

O mais surreal é que, enquanto tudo isso sucedia, ecoava na minha cabeça os acordes da Patife Band: “Você faz tudo pro teu bem, meu bem.”

3 Já Comentaram para “Agradecemos a gentileza”

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  2. soraia disse:

    e eu, que sempre o li
    comecei a ir na City para vê-lo
    mas nunca vi…

  3. soraia disse:

    Mário Ivo, que bacana: que a sua vontade de escrever dure um bom tempo. Sim, eu sou a que ama os seus audios, e espero por eles.

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