Adivinhe quem vem para o café-da-manhã: Iaperi Araújo

26 de agosto de 2009

Cultura 220809


Mais uma vez o convidado de hoje dispensa apresentações – e, neste caso específico, se poderia dizer até para aqueles que nasceram, literalmente, ontem: Iaperi é médico, ginecologista, obstetra. E artista plástico, escritor, pesquisador, e mais um monte de coisas, todas de igual importância, relevo e estofa – isso derna muito tempo, embora mantenha o aspecto sempre jovial, incluindo o jeito chistoso de ser: sugeriu que a coluna de hoje deveria ser alterada para “Adivinhe quem se convidou para o café-de-manhã”, e ele mesmo explicou os motivos:

“Mário, há tempos vivia doido pra tomar o café da manhã com seus leitores e você não me convidada. Resolvi me oferecer e com um texto que retirei da minha novela NA CAPITANIA DEL REY, que recebeu menção honrosa do prêmio Câmara Cascudo, não sei em qual ano. Reescrevi o capítulo que trata do café da manhã da bugra Domingas, mulher de Jacó Rabi, o comandante dos massacres de Cunhau e Uruaçu, retirando os temas fesceninos e eróticos não condizentes com um desjejum.”

É claro que eu já tinha convidado Iaperi, e é claro também que não concordei muito em privar o leitor, a leitora, da pimenta fescenina, dos temperos eróticos. Mas, enfim, isso pouco importa agora – o que vale é desfrutar de um breakfast como nos tempos d’El-Rey, e lembrar às autoridades competentes que o texto original está no plano editorial da Funcarte há um bocado de anos (embora é claro que eu não preciso recordar a Cesar Revorêdo o que ele competentemente sabe fazer muito bem).

NA CAPITANIA DEL REY – por Iaperi Araújo

Domingas madrugou como sempre fazia. O sol nem havia nascido pras bandas da fortaleza Keulen. Banhou-se rapidamente no riacho cunhã-ari e foi pra cozinha, uma área aberta, coberta de palhas, nos fundos da casa em que morava num distrito de Ceará Mirim. Com água fervente, num coador de pano, fez o café que ela mesma torrara num caco misturado com açúcar mascavo. O cheiro bom de café novo invadiu suas narinas onde um toco de pau atravessava o septo como ornamento. Numa panela ferveu o leite que Hans, o criado alemão já tirara das duas vacas mansas que pastavam na margem do riacho. Cortou algumas mangas rosas que perfumavam a cesta sobre a mesa. Abriu uma melancia madura de correr água, doce como mel. Cozinhou batatas doces. Umas tantas brancas e outras baroas, arroxeadas. Depois descascou duas manivas de macaxeira à maneira dos bugres, como quem descasca uma laranja e não raspando. No quintal à sua frente, pés de gerimum e melão cobriam parte do terreno. Foi lá e colheu um gerimum caboclo, verdinho e colocou pra cozinhar numa lata no fogão de trempe. O melão bem maduro, abriu em bandas e colocou junto das outras frutas que já estavam na mesa posta que ela cobrira com um longo pano de algodão, cheirando a limpo. Da dispensa trouxe os queijos. Coalho e manteiga. Trouxe também alguns ovos de galinha caipira que tratou de estralar na banha e uma tira de carne-de-sol que jogou sobre as brasas do fogão de alvenaria. A manteiga de garrafa também foi colocada sobre a mesa e ainda encontrou uns pães rústicos que o companheiro comprara na noite anterior na Vila da Coroa, do outro lado do rio Potengi. Rapidamente lembrou-se de ver se o bolo de milho já estava assado e se o cuscuz, colocado a cozinhar sobre o bafo da panela, envolto num pano de algodão já estava no ponto, pois o cheiro denunciador já corrigia a casa toda. Lamentou não ter tempo de torrar uma galinha gorda que amarrara pelo pé sob uma pimenteira toda decorada de frutos vermelhos, mas recolheu umas mangadas que caíram de maduras pela madrugada para fazer um suco.

Só então foi acordar o marido. O gajão dera pra chegar tarde da noite. Dizia que eram negócios.   Nesse domingo mesmo, avisara que precisava sair bem cedo, em missão de correção no engenho Cunhau, porisso madrugara mais ainda. No quarto do casal, não encontrou o marido. Fora embora. Sem nem tomar o café? [IAPERI ARAúJO]

PROSA

“O amor nos torna maus, isso é um fato certo.”

Samuel Beckett

Primeiro Amor

VERSO

Lágrimas de amante, ó mal-amada, não têm no amante sua fonte.”

Saint-John Perse

“Marcas marinhas”

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