Adivinhe quem vem para o café-da-manhã: Ana Célia Cavalcanti

11 de fevereiro de 2010

Tenho um sobrinho trabalhando no – ou na – Google, em Noviórqui. Faz um tempinho. Quando inventei uma seção aos sábados (Adivinhe quem vem para o café-da-manhã) para a minha coluna do finado JH 1a edição foi um dos primeiros convidados, mas como diz não gostar muito de escrever, fez o que faz a maioria: não aceitou. Agora, refiz o convite para minha irmã, que a princípio também não quis, alegando não conseguir ser imparcial nem evitar o lado emocional de mãe, naturalmente coruja. Mas como além do coração materno ela tem uns diplomas de doutor e um bocado de títulos acadêmicos importantes (o irmão coruja sou eu), terminou escrevendo, um misto de história pessoal, familiar e sua visão de professora e pesquisadora nas áreas de gestão estratégica e engenharia de produção. É a que segue:

*

Visitando a (o) Google, por Ana Célia Cavalcanti

Antes mesmo do meu filho entrar para a Google (“o” ou “a”? bem, vou chamar de “a”, de agora por diante), eu já tinha uma grande admiração por essa empresa. Na Fortune e em tantas outras fontes de informação, ela sempre estava no ranking das melhores empresas para se trabalhar, e, muitas vezes, foi tida como the best.

Um dia, o filho de uma amiga, também professora da UFRN em Natal, foi procurado pelos head hunters – os “cacadores de talentos” – da Google e da Microsoft. Na mesma  época, meu filho já morava nos EUA, sempre fazendo as famosas provas de certificações internacionais, cada vez mais avançadas, e, para meu orgulho de mãe “besta” (como toda mãe que se preza!), sempre sendo aprovado. Ele já trabalhava numa empresa de informática, em Baltimore, Maryland. Então, eu resolvi perguntar: “Marcel, por que você não se candidata para a Google?”. Ele responde algo como, “mamãe, é muito difícil, eu já tou bem nessa empresa, blá-blá-blá”.

Um tempo depois, vou visitá-lo onde então morava, em Annapolis (perto de Baltimore e Washington D.C.), e ele me diz, “na próxima semana vou ter que ir a NY e queria que você fosse comigo: vou fazer o teste final da Google, umas entrevistas presenciais”.

A única coisa que pensei foi que esse menino vai longe (e me lembrei de um quadro de Flávio Freitas que tinha dado de presente a ele e que dizia mais ou menos assim Era uma vez um jovem que um dia descobriu que tinha um passo maior que sua cidade Natal. Desse dia em diante nunca mais foi o mesmo).

Bom, voltando ao assunto e saindo do meu papel de mãe very proud, fomos pra NY e ele fez umas cinco ou seis entrevistas. Pra encurtar a conversar, foi aprovado: Marcel era um novo funcionário da Google! Brasileiro, natalense, ex-aluno da UFRN, determinado, esforçado, planejador e estrategista, ele conseguiu!

Passei então a me informar ainda mais sobre essa empresa “maravilhosa” onde as pessoas eram felizes no trabalho. Podiam até levar seus animais de estimação: um dia, li na internet, desapareceu uma cobra de um dos Googlers (como são chamados os funcionários). Liguei pra ele, toda apreensiva, e ele na maior tranquilidade me responde: “Mamãe, a cobra é de fulano, meu colega, senta vizinho a mim” e tal.

Então, é assim, eles podem levar seus pets, podem se vestir à vontade, tem gente de jeans e camiseta, tem gente vestindo alta costura, elegantes, deselegantes, alternativos, tem de tudo, tudo pode, ninguém critica sua roupa, nada. Liberdade para vestir, pra levar seu cachorrinho, peixinho (cobra não mais!).

A maior liberdade, no entanto, é o horário flexível: quem quiser, pode ir trabalhar até na madrugada, por exemplo.

Impressionada com essa flexibilidade de horário, escolhi esse tema como um dos principais para minhas linhas de pesquisa do mestrado de Engenharia de Produção na UFRN. Isso foi em 2006. Apareceram 28 candidatos e eu tinha apenas uma vaga. No decorrer da dissertação da aluna selecionada, vimos os prós e os contras dessa jornada de trabalho flexível. Não preciso comentar os prós, porque são evidentes, mas um dos maiores contras diz respeito ao trabalho em excesso.

Isso numa empresa que coloca à disposição dos funcionários uma série de vantagens no ambiente de trabalho. Só para citar alguns exemplos, são 11 restaurantes (na sede de Nova York) totalmente free para googlers e convidados (vez em quando eles podem levar alguém). Café-da-manhã, almoço, jantar, culinária italiana, árabe, vegetariana, americana, japonesa etc. E lanches espalhados por todo a parte, sanduíches, cafezinho, sobremesas, sorvetes, chocolates, sucos, refrigerantes, de todos os tipos possíveis e imagináveis… Tem comida light e comida “hard” – o problema é ser disciplinado e comer apenas as lights. Vi muito googler chubby por lá, ainda mais com a ajuda dos patinetes para o deslocamento interno. Pra contrabalançar, piscina, quadra de vôlei, academia de ginástica, pilates, ioga, massagem, sempre tudo free. E pode-se usar a qualquer hora, o importante é cumprir sua tarefa.

Além disso, happy hour uma vez por semana, incluindo bebidas alcoólicas, jogos fora da empresa nas sextas, big festas em lugares fantásticos para comemorar datas especiais, como Natal, Ano Novo, Ação de Graças etc.

De vez em quando palestrantes de renome internacional são convidados, incluindo chefs de cozinha, sem falar na ampla oferta de cursos, de todos os tipos. Sempre de alto nível. Ainda: plano de saúde (dos melhores), internet paga, computador de ultima geração, celular, lugar para lavar as roupas etc. etc.

E, o mais interessante – ao menos no meu ponto de vista – é que cada um controla seu horário. O que inclui dispor de até 20% de tempo livre para se dedicar a projetos pessoais.

No final de cada semestre, ou ano, é feita uma avaliação “360 graus”. Conforme o resultado, o googler é promovido ou não. Há incentivos para participar de projetos extras, onde assim se aprende mais e há maior possibilidade de mobilidade horizontal ou mesmo progressão vertical. Tudo envolvendo ainda mais trabalho, claro, mas as possibilidade existem, as chances são oferecidas.

Apesar ser comum ver muita gente rindo e conversando nos corredores (e até brincando com legos), quando os googlers estão trabalhando o silêncio e a concentração são totais.

As salas são todas abertas, separadas apenas por uma divisória baixa, existem cadeiras de massagem à disposição, e cada um faz a própria decoração do seu espaço – quase como se levasse a casa para o trabalho. Muito legal.

Mais legal ainda são os resultados do trabalho desses jovens (alguns, é verdade, já estão ficando menos jovens), que nem preciso citar aqui, porque são muitos e muitos produtos e serviços que a Google oferece e que cada vez mais se modernizam e agregam valor tecnológico.

Mas, essa grande empresa passou realmente a ser grande nos últimos anos. O número de funcionários mais que triplicou. Com isso – e é normal – ficou mais complicado manter alguns diferenciais. Assim, a comidinha bem feitinha e personalizada passou a ser feita pra muita mais gente, o que deve ter dificultado manter a mesma excelente qualidade de antes (depois da crise a coisa parece que ficou menos requintada, embora ainda muito boa). E, hoje, é possível ler em alguns blogs de googlers algumas reclamações sobre “novas-velhas” formas de gestão adotadas por alguns, menos “orientativas” e mais “cobradoras” de resultados imediatos. Os números começam a falar mais alto?

A revista Época, ainda em 2006, citava que um engenheiro foi demitido por revelar detalhes da vida dentro do Google em seu blog. Disse que havia um clima diferente, como se as pessoas seguissem uma religião ou fizessem um esforço extraordinário para se mostrar felizes. Um empresário que visitou a sede da empresa disse que “quando se trata de proteger seus projetos e estratégias, a Google beira a neurose”. Mas, mesmo com todas as ressalvas, um emprego na Google continuava sendo um dos mais cobiçados no mundo.

O fato é que, muito daquilo que aprendemos sobre gestão moderna de pessoas, pude observar que existe realmente na Google. Mas, em alguns casos e situações específicas, eles parecem ter ficado um pouco “menos humanos”, um tanto “mais capitalistas”, como em tantas outras empresas. Será ainda possível manter o conceito de “empresa feliz”? A Google cresceu e com isso chegaram novas pessoas, com outras mentalidades, experiências etc. Crescer nem sempre é bom, pode-se perder um pouco o controle do conceito tão almejado e conseguido por tanto tempo. Implicações da vida empresarial.

Quanto à competitividade (individual), hoje me pergunto se ela chegou apenas nos últimos tempos ou se sempre existiu na Google.

O que a minha aluna estudou em sua dissertação, sobre a possibilidade de se trabalhar muito mais, beirando o limite da exploração, também parece ser realidade em algumas áreas. Alguns googlers parecem estar “à beira de um ataque de nervos” pra conseguir uma promoção. Tem gente trabalhando nos fins de semana e varando noites – e não é porque não trabalhou durante o dia, ou folgou alguns dias da semana. Vale salientar que tem gente que trabalha demais porque gosta, outros porque precisam e ainda há aqueles que, simplesmente, se viciaram nisso. Quanto a isso não se pode culpar diretamente a empresa, verdade?

É por isso que, na minha última visita, há alguns dias, já não senti mais a mesma emoção daquela primeira vez alguns anos atrás. Já não fiquei tão impressionada com os patinetes, nem com as comidas, nem com as roupas, muito menos com os pets… Talvez por estar mais claro, agora, para mim, alguns dos contras apontados pela dissertação da minha aluna… Talvez por essa minha mania de pesquisar e analisar tudo, que me levou a questionar se, por trás da tal “empresa feliz”, na verdade exista uma outra empresa nem tão feliz assim, e que, no final das contas, está ficando um pouco igual às outras.

Enfim, toda empresa tem seu lado negativo, como toda família, toda pessoa, enfim. E, se é assim, acho que a Google ainda deve ser uma empresa bem legal pra se trabalhar. Afinal, quem já viu uma empresa que pode ser a extensão de sua casa? Onde você pode levar seu bicho de estimação, vestir sua roupa mais velha e preferida ou o Armani da moda, começar o dia tomando seu café-da-manhã lá mesmo e só voltar pra casa depois do jantar (não atrasado, mas depois de ter jantado). Uma empresa onde você pode dar uma pausa e fazer uma série de atividades físicas, onde você pode brincar e – pasmem – até trabalhar.

Resta saber se os maridos, mulheres, companheiros, enfim, desses googlers, gostam realmente disso. Ou se alguns googlers preferiam ter um salário maior, em vez de tanto benefício indireto (o pessoal da Microsoft, que “envelheceu” antes, já não queria tanto esses benefícios, e preferiam tomar café e jantar com a família, por exemplo). Não se pode agradar a todos.

Para concluir, a despeito de críticas e elogios, a Google continua crescendo a olhos vistos. Se conseguiu “criar um ambiente em que todos conseguem não apenas ganhar mais dinheiro, mas sobretudo obter um melhor equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional” – como a empresa prega – também não sei se conseguiu. Isso é realmente algo um tanto complexo, afinal, as pessoas são diferentes e nem sempre o que é bom pra um é também bom para o outro. Uma coisa é certa: tem muita, muita gente “se matando” pra conseguir uma vaga pra  trabalhar lá… [Ana Célia Cavalcanti]

*

A seção Adivinhe quem vem para o café-da-manhã volta para esse espaço virtual com esse primeiro texto. Deve ser mantida aos sábados, mas, justamente por ser a internet mais “livre e soberana”, vamos combinar assim: fica mais ou menos livre o dia de postagem. Hoje, especificamente, a antecipação tem justificativas carnavalescas, claro.

2 Já Comentaram para “Adivinhe quem vem para o café-da-manhã: Ana Célia Cavalcanti”

  1. Ô Marioivo, eu vou falar aqui com Ana Célia, visse?
    Ana Célia!
    Viva você, querida!
    Saudades das lutas políticas, dos anos da ADURN, lembra?
    E da juventude, é claro!
    E esse seu menino sabido trabalha junto com Daniel-de-Vera-Amaral, não é?
    Esses meninos são danados.
    Beijo grande.
    Clotilde

  2. Carito disse:

    Só faltou a MAna Célia dizer que fui eu quem ensinou esse menino sabido a andar de bicicleta, no final dos anos 80 em Madrid, quando eu era baby-siter dele e de Daniel – outro menino sabido… Pois é, e lá ia Marcel descendo a ladeira de bicicleta, “desimbestado”, sem medo de cair, praticamente se jogando, se lançando, e eu dizia: freie! Freie! E eu percebi: “esse menino vai longe”…

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