A senhora gosta do ié-ié-ié?

7 de junho de 2010

Realidade 1

Assim, sacada do seu contexto original, a pergunta pode parecer pra lá de ambígua dependendo do humor e da mente perversa de quem a profere ou a ouve.

É uma das muitas feitas pelo Inese, Instituto Nacional de Estudos Sociais e Econômicos, para a revista Realidade, no distante ano de 1967, buscando um retrato por inteiro de “A mulher brasileira, hoje”, título da reportagem.

A edição especial de Realidade terminou sendo apreendida e volta agora, reimpressa, com seu conteúdo original, incluindo as publicidades, o que torna o feito ainda mais saboroso e indispensável, mesmo diante dos R$ 20 cobrados (Cr$ 800 à época).

O motivo da censura, aparentemente, foi a foto de uma mulher, nua, pernas abertas, sobre uma cama desfeita – era a imagem de um parto. Escândalo, concluiu um juiz de menores que ainda confiava na cegonha e outros mimos.

Em verdade, em verdade, toda a revista deve ter eriçado os cabelos dos milicos debaixo dos quepes e capacetes que abundavam então.

“O homem é apenas uma mulher imperfeita?”, ousava perguntar a revista numa matéria. “A única liberdade de que goza a mulher brasileira é a de escutar o homem, curvando a cabeça”, afirmava a atriz Ítala Nandi, então com 24 anos, concluindo: “E não porque não quer, mas porque não pode.” Outra, menos famosa e escondida sob nome fictício se perguntava, num diário íntimo: “Meu Deus, como achar uma pessoa [...] que aceite uma mulher desquitada?” Outra reportagem, sobre uma senhora ocupando a direção de uma tecelagem, exibia título sintomático: “Dona Berta, o Diretor”. E uma estudante de Direito, 20 anos e mãe solteira desafiava: “Tenho como regra não deixar o mundo mandar em mim.”

Por tudo isso, e não apenas pela foto da parturiente, era lógico que a turma da Tradição, Família & Propriedade, braços dados com a santa madre igreja, não iam deixar barato aquele atentado à moral e aos bons costumes condensado em 122 páginas, multiplicado em 475 mil exemplares, e exposto nas bancas de revistas, espanando a alegria e a preguiça reinantes naquele verão de 66/67.

Folheando o reimpresso, impressiona também o conteúdo dos anúncios, revelador do abismo entre o mundo masculino e aquele feminino, na contramão do conteúdo editorial.

Como você gostaria que fosse sua secretária? – pergunta um pequeno anúncio sobre uma coleção de livros para executivos no comando-maior das forças empresariais, confirmando a exceção de Dona Berta, inédito “Diretor” de fábrica.

Médicos, administradores, usineiros, industriais, todos aplaudiram com entusiasmo as inovações do seu Utilitário Chevrolet 67 – pregava outro, ignorando a possibilidade de o sexo feminino chegar ao “topo” em qualquer uma dessas atividades. Automóvel era coisa pra macho – o que se confirmava neste outro: O Aero-Willys sempre conta a história de homens bem sucedidos.

As mulheres que se fodam, então. Desde que com seus maridos, claro. E sejam mães. E posem para as fotos com o bebê em mãos e não em meio ao sangue e à placenta.

Às mulheres restava dividir, máximo, a televisão do lar, doce lar: “TeKinho”, outro anunciante, era um aparelho de 13 polegadas, opção para as famílias que ainda não brigavam pelo controle remoto porque este não existia. Companheiro da mamãe o dia inteiro, detalhava o texto, como se as mulheres passassem o dia em casa – e passavam – ao contrário dos varões (Para o papai fugir da novela –outra das vantagens do TeKinho).

E o que se via na tevê à época? Segundo a revista, no horário da tarde imperavam programas “especialmente dedicados às mulheres”, todos eles de baixo nível:

A mediocridade dos produtores, a falta de preparo das apresentadoras e o mau gôsto geral fazem dos programas femininos uma das piores coisas da televisão brasileira.

(Ou seja, nas reformas gramaticais dos anos, perdemos o circunflexo do gôsto muito antes do agudo das idéias, mas a programação da TV continua péssima.)

Uma das novelas das quais o papai deveria fugir, por recomendação expressa do TeKinho, era “As minas de prata”, uma colossal obra-prima da televisão brasileira!, segundo o anúncio da TV-Excelsior. No elenco, entre outros e outras, Regina Duarte e Suzana Vieira. (Décadas depois, Regina entraria para a história com aquela frase ridícula, “eu tenho medo”, enquanto Susana, trocado o z pelo s, trocou também uma meia-dúzia de maridos, todos mais novos do que ela, nenhum deles, claro, jamais tendo aplicado Wellaform nos cabelos ou usado camisas Volta ao Mundo e ternos de Tergal-lã Guahyba, como nos anos 60.)

Mulheres elegantes preferem Helanca por três razões – admoestava mais um anúncio de página inteira. Destaco o terceiro dos motivos: porque os homens gostam de mulheres elegantes! E elegante, sem dúvida, era Ursula Andress, que não pode desapontar aquêles que a consideram a mulher mais bela do mundo – e por isso faz, fazia, como nove entre dez estrelas, usando o eterno, quase eterno, sabonete Lux. De luxo.

*

Realidade 2

Mas, chega de propaganda.

Interessante, também e ainda, que a editora dos Civita republique essa edição justo às vésperas de uma eleição presidencial que tem tudo para transformar Dilma Rousseff numa nova Dona Berta – mas, hoje, sem usar o cargo profissional no masculino: salvo engano, os marqueteiros de Dona Dilma já declararam que ela será chamada Presidenta na campanha eleitoral, televisiva e “gratuita”, que se aproxima.

É inegável que, se a candidata fosse do PSDB e não do PT, haveria quem puxasse do bolso uma teoria da conspiração insinuando que os Civita estariam fazendo propaganda subliminar – afinal, tal como era em 1967, a revista, lida ou relida hoje, é quase um libelo em defesa das liberdades e direitos das mulheres.

Mas aí, quando se analisa a resposta a uma das muitas perguntas, além daquela do ié-ié-ié – “Se o Brasil fôsse governado por mulheres, iria melhor?” – uma pulga instala-se por trás da orelha: a maioria respondeu que, “apesar dos pesares, 77% das mulheres pensam que como está – os homens no poder – está muito bom.”

O danado é que depois de figuras como Margaret Thatcher e Condoleezza Rice fica difícil achar que as mulheres podem mudar o mundo para melhor apenas porque são mulheres.

Melhor ficar com aquelas que curtem, de verdade, um ié-ié-ié.

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