A semana gay e a babá lésbica

7 de maio de 2010

A semana que passou foi – insolitamente, insuspeitadamente, qualquer-coisa-mente – gay.

Isso. Gay. Não precisa nem usar o itálico, que todo mundo sabe o que é gay. Mas vou buscar no dicionário pra não restar dúvidas. Que droga: no Houaiss de sinônimos e antônimos não tem o verbete – pulam de “gáudio” pra “gazeta”. E lá me vou botar no colo as 2.922 páginas do Houaiss, que sou antigo e não tenho dicionário no computador. Gar, gat, ger… péra, que temos que voltar umas páginas. Gav, gel… de novo. Bingo! Depois de “gaxirama”, antes de “gaylussácia”, eis a nossa palavra buscada. Gay: “ver homossexual”. Hid, hip, inc – putz, não acerto uma. Ina, hor, honhomossexual: “que ou aquele que sente atração sexual e/ou mantém relação amorosa e/ou sexual com indivíduo do mesmo sexo.”

Pois é, nada de novo no front – nem na retaguarda também, poderia acrescentar, pra não perder a piada pronta ainda que besta, infame, tal.

Isso tudo ou tudo isso porque o senhor Valério Mesquita inventou de escrever artigo [Tribuna do Norte, 4 de maio de 2010, aqui] intitulado “Escândalo e decadência”, provocando algumas reações em cadeia no twitter.

Alguns tuitêiros chegaram a duvidar da existência de Mesquita, supondo que poderia ser um fake, coisa comum no meio virtual.

Pois bem, gurizada abaixo dos 30, Valério Mesquita existe – e inda por cima é imortal da Academia de Letras. Do Rio Grande do Norte, mas sempre Academia de Letras é. Foi também prefeito de Macaíba e deputado estadual uma ruma de vezes. E presidente da Fundação Zé Augusto. Dizem que foi durante a sua presidência que a fundação inchou de gente, a maioria ainda por lá, ou aposentada, inflando, qualquer jeito, a folha de pagamento todo santo mês.

Tem gay na Fundação Zé Augusto? Sei não. Mas, se tem, com certeza entrou depois da gestão Mesquita, que acredita que o homossexualismo entra na esfera das “aberrações sexuais (transtornos de conduta moral)”, e é “um vício, um problema médico e ou social”.

Pausa.

Daí que me lembrei de uma piadinha maldosa contada na calçada da Casa da Ribeira, noite dessas – alguém comentou: “É preciso criar urgentemente cotas de heterossexuais na Funcarte/Capitania das Artes – tá tudo dominado.”

Play.

It.

Again.

Valério Mesquita (o real) estava indignado com parte do Senado Federal por ter iniciado “a discussão da proposta de discriminação da homofobia em colisão com as convicções cristãs”.

“Como pano de fundo”, explica o imortal, “a proposta pretende punir quem reprova o homossexualismo”.

Valério Mesquita (o indignado) está preocupado, preocupadíssimo. Com o cidadão homossexual, bissexual ou transgênero. Acha que quem se enquadrar numa das três categorias anteriores pode, quando acompanhado de comparsa, exibir em público qualquer afetividade, uma vez que os censores de plantão estão proibidos por lei de se manifestarem contra.

O resultado será “acafajestar a sociedade”.

Uma postura, essa do governo brasileiro, “pró-safadeza”.

Questiona, ainda, o articulista – no trecho que gostei mais:

E como ficam os postulados bíblicos e as igrejas que já sofrem e combatem, não só publicamente, mas internamente, tais procedimentos à luz das Sagradas Escrituras e dos bens costumes? Vão calar diante da prática nas ruas de atos obscenos? Até a dona de casa que descobrir e exonerar a babá lésbica que cuida das crianças será punida (art. 4º do projeto de lei).

Nunca tinha pensado que uma babá poderia ser lésbica.

Mas imaginar que uma lésbica possa ser um perigo, ao trocar, por exemplo, as fraldas de uma bebê, é imaginar que qualquer homem poderia fazer o mesmo. Afinal, ambos, homens e lésbicas gostam da mesma, digamos, fruta (em itálico).

Conclusões, associações e generalizações perigosas – especialmente na semana em que um representante da igreja católica (e das “Sagradas Escrituras”) afirmou, como que para justificar a pedofilia escandalosa da(s) paróquia(s), que “a sociedade atual é pedófila”.

E, dia seguinte, um certo bispo Dom Angélico Sândalo (não, não é fake), remendou o colega, afirmando que não se pode confundir pedofilia (até 12 anos) com efebofilia (12-18 anos).

Talvez quisesse dizer, angelical, que “a sociedade atual não pode ser pedófila, porque é muito mais efébica”.

Então, tá.

Mesma semana, também, em que um certo George Alan Rekers, ministro da Igreja Batista nos EUA e membro da Associação Nacional para Pesquisa e Terapia da Homossexualidade, foi flagrado desembarcando num aeroporto em Miami ao lado de um michê.

Segundo o Miami New Times, Rekers viajou com Lucien, um garoto de programa, contratado através do sítio RentBoy [aqui, pra quem tá de viagem marcada].

Ainda segundo o jornal, Renkers teria testemunhado em processos contra a adoção de crianças por homossexuais. Ou seja, um daqueles, como descrito por Mesquita, que “sofrem e combatem, não só publicamente, mas internamente, tais procedimentos à luz das Sagradas Escrituras”.

Boa mesmo foi a desculpa do ministro batista: que tinha alugado o rapaz apenas “para carregar suas bagagens”. E que só tinha descoberto a profissão do moço no meio da viagem. Deve ser por isso que ao desembarcar quem empurrava o carrinho era Renkers, enquanto Lucien abanava as mãos.

A semana terminou, ainda, com um casal gay proibido de adotar um surfista de 22 anos e dois jogadores do Barcelona fotografados em atitude considerada “suspeita”.

Inegável [confiram aqui e aqui] – mas, noves fora o riso passageiro, e daí?

Por que todo mundo se preocupa com a vida sexual dos outros? Especialmente quando os outros são homossexuais?

Lembra aquela outra piadinha, muito melhor contada por Glauco Matoso:

Dois cidadãos trepavam pacatamente no Buraco da Maysa. O guarda chegou e foi logo dando o esporro:

- Pouca vergonha! Na via pública! Tamanhos marmanjos!

Antes que o guarda partisse para o uso da força, o passivo, que era uma versão Cassius Clay de Madame Satã, pediu ao parceiro com voz melíflua:

- Tira, Jorge.

Quando o outro saiu de dentro, o crioulão perdeu toda a feminilidade, agarrou o guarda pelos colarinhos e urrou:

- Escuta aqui, maninho, por acaso cê é o dono da cidade?

O guarda, apavorado com a reação, entregou os pontos:

- Não.

- É o dono da rua?

- Não.

- É o dono do cu?

- Não.

Soltando o pescoço do guarda, o crioulo voltou-se para o outro e pediu com voz melíflua:

- Bota, Jorge.

(MORALIDADE: Entre bofão e bofete, não metas o cassetete)

[Glauco Mattoso, “O DIREITO DE IR-E-VIR” in Antolorgia – Arte Pornô. Rio de Janeiro: Codecri, 1984]

Eu, da minha parte, vou passar o fim de semana pensando na babá lésbica. Pensem vocês o que quiserem.

2 Já Comentaram para “A semana gay e a babá lésbica”

  1. Alex de Souza disse:

    Tá mas você sabe que a história do surfista é fake, né? E que continua valendo a pergunta: quem diabos é Valério Mesquita?

  2. soraia disse:

    só mesmo algum componente de recalque explica tanto interesse jornalistico (publico) sobre que pega quem…quando a relação é homo por que o interesse cresce tanto? no caso Ibra e Pique (é isso?) só falta invocarem a “proibição de relacionamentos entre funcionários da empresa e possíveis comprometimentos da produtividade” tão em voga no presente.

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