A medida do frio é o desejo de calor

26 de julho de 2010

Nos Tristes Trópicos passar frio não chega a ser novidade.

Em Martins, RN, fazia um friozinho arretado quando eu era menino. Noite, então.

Também, e ainda menino, as matas de Garanhuns, PE, soltavam fumacinha pelas ventas quando eu e meu irmão saíamos pra flagrar o nascer do sol usando a velha Yashica do pai.

Embrenhando na adolescência, as ondas do Arpoador, Rio, RJ, eram altas, mas a água tinha cubos de gelo e agulhas espetavam nossos pés. O sol se punha por trás das montanhas. O chuveiro era a gás. Fósforos na ducha, chama no banheiro.

Mesma viagem e idade, os sanitários de Florianópolis, ilha, SC, eram tão gelados quanto o papel higiênico. A qualquer hora do dia, que as necessidades não têm horário.

Até no alto da duna de Genipabu, RN, muitos muitos invernos atrás, quando nem camelos nem dromedários balouçavam por lá, fazia um frio medonho. Enquanto a lua se esparramava no mar. Mas era uma gostosura enfiar os dedos por baixo da camisa da namorada e se aquecer em suas costelas quentes.

(São três, a propósito, os conselhos para enfrentar mais galhardamente o frio: 1. beijar na boca. 2. roçar os pés, os quatro, mas por baixo do cobertor, pra garantir. 3. enfiar os dedos por baixo da camisa dela e aquecê-los contando cada costela.)

De Goiânia, GO, a namorada, falei? Pois, tô falando. E não é à toa.

Noite dessas, noutro lugar que desta vez não revelo as coordenadas geográficas por pura vontade de não revelar, chovia. E alguém lembrou:

A chuva aproxima as pessoas.

Pois. O frio aproxima mais – ou ao menos mais intimamente. Já perceberam que basta soprar uma fresca que fica todo mundo orando por um cobertor de orelha? Um cobertor de orelha – dos bons – não se encontra assim fácil em qualquer esquina. Aliás, é remédio mais pra alma que pros ossos. O frio obriga – ou desculpa – dormir agarradinho. Abraçadinho. Apertadinho. Juntinho. Que tudo que envolve esse arrulhar amoroso é diminutivo. Carinhosinho.

Pois.

Daí a conclusão: a medida do frio é o desejo de calor. Então. Isso. Quanto mais se deseja calor, mais frio se sente.

Daí a sensação térmica não coincidir necessariamente com as latitudes. Eu, por exemplo: o extremo norte mais remoto que dei com os costados foi Estocolmo, SW (de Sweden, Suécia), inverno de mil e novecentos e.

Lá, certo dia, fomos pra floresta.

À beira da floresta tinha um lago. À beira do lago, árvores descomunais. Verdes, marrons. E um pierzinho, um trapiche, de madeira, num canto. Alguns metros atrás, uma cabana, também construída com madeira. E, dentro da cabana, uma sauna.

A idéia era se aquecer até não mais poder na sauna e disparar o corpo fumegante até o lago.

Assim, procedi.

Não se enganem: o frio não era na pele, nos músculos, nos ossos, no corpo. Era no cérebro. Milhões de dardos de gelo se enfiando por baixo do couro cabeludo e provocando uma dor de cabeça descomunal. Súbita.

Mas o que eu queria dizer era exatamente isso: não foi esse o maior frio. Não.

O maior, o mais gelado, o mais terrível, sobre o qual não havia forças nem casacos nem aquecedores nem fogo que desse jeito, foi durante o período em que percebi que a pessoa que estava ao meu lado, dormindo na mesma cama, já não me aquecia.

Nem eu a ela.

4 Já Comentaram para “A medida do frio é o desejo de calor”

  1. claudia disse:


    Come on baby, light my fire
    Try to set the night on fire

  2. Milton Simão Bezerra disse:

    Sendo irmão do amigo João Helder, filho do Dr. Jessé Cavalcanti, só pode ser escritor de mão cheia. vc, é amigo de Aldo Jr? É meu quase-sobrinho(filho de uma cunhada).
    Abraço.

  3. Mario Ivo disse:

    gracias, caro simão, aldo jr é amigo sim, e de longa data, portanto, da família tb.

  4. cu disse:

    aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa]
    socoro
    me ajude

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