A garota de Turim

23 de maio de 2010

Não vale à pena procurar a data exata, preciosismo inútil, mas um dia conheci uma garota de Turim e nunca mais nos encontramos.

Como dizem por aí: isso é fato.

Não seria difícil localizar ano, mês, dia. Tenho papéis que comprovam o evento, embora de efeméride não se tratasse – não houve queda de muro, como em Berlim, não houve resposta para a perguntinha fácil tipo “o que você estava fazendo quando Kurt Cobain estourou miolos e sonhos” ou “quando Cássia Eller entrou naquela clínica em Laranjeiras”.

Eu não estava diante da tevê, eu não estava comendo ninguém, eu não estava enchendo a cara na cigarreira da esquina.

Eu era apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no bolso e uma poesia classificada para um concurso promovido pela Ataf, a empresa de ônibus urbanos de Florença, Toscana, Itália.

E fazia frio, muito frio, naquela manhã de sábado. Ainda mais frio por que um casamento interrompido, me deixando flanar só pela cidade em busca de outros renascimentos.

Eram 40 os selecionados: 40 pretensos poetas que teriam seus poemas impressos nos bilhetes de ônibus durante um, dois ou três meses. Eu, o único brasileiro no meio. Enganava bem, com um italiano aprendido nas ruas e em casa, e um Cavalcanti nobre por sobrenome.

O fato, fato é, que, na selva ou à sombra do Duomo, não me agradam as solenidades, as reverências, as efemérides. Eu agradeci à comissão, fazia frio naquela manhã de sábado e eu estava sozinho – falei. E entre todos os 40, dois se desgarraram do acontecimento, entre o provincial e o familiar.

Talvez por estarmos sós, a garota de Turim e eu fomos tomar um café.

Fazia frio, naquela manhã de sábado. Tanto frio.

Ela pediu um copo d’água, meio gelado, meio natural.

E aquilo me chocou e me abriu novas possibilidades. Ela estava resfriada – e desconfio que, mais de dez anos depois, o resfriado nunca passou.

Era uma garota de Turim, e em Turim o frio é eterno.

Ao contrário de Roma, Cabo Verde, Porto, Atenas, Rio, Maceió, Natal, para aonde fui, às vezes nas intenções, às vezes nos atos, e ela não.

Durante esses anos, ela me escreveu cartas, que depois se transformaram em emails. Eu publiquei um livro, que nunca enviei. Ela publicou um muito melhor, de poemas, Geometrie dell’attesa, que me enviou com dedicatória.

Ela ainda estava resfriada quando nos falamos a última vez. Em Florença, naquele inverno, fazia realmente mais frio. Em Turim, não quero nem pensar.

A avó da minha filha morreu e o trem para o Piemonte partiu, mais uma vez, sem mim.

Quem sabe que linhas retas desenharia enquanto mastigava trilhos e espera.

Um Já Comentou para “A garota de Turim”

  1. Jarbas Martins disse:

    Texto, Mário Ivo, pra se guardar em minha velha caixa de charutos cubanos.

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