a falência de deus

1 de dezembro de 2014

CG, no The Guardian 2.1.2010

Encontrar Charlotte Gainsbourg na padaria é sinal de que a vida ainda vale a pena e pouco importa se a expressão anterior leva crase ou não. Porque não é todo dia que o sujeito sai de casa e dá de cara com Charlotte Gainsbourg na fila do pão. Ou da baguette. Ou do croissant. It’s a long road, já diria o senhor que canta, embora ele prefira o caminho à estrada e ninguém tem nada com isso. Encontrar Charlotte Gainsbourg na padaria é sinal da onipresença de deus, sinal de que a trindade escreve torto com linhas retas, uma saia beirando o calcanhar, uma bolsa chanel provocando o cotovelo em ângulo estreito, uma boca estranha como só a boca estranha de Charlotte Gainsbourg permite-se exibir na feiura descontrolada à qual é negado o acesso às mais belas do lugar comum. Ah, meus senhores, não há como descrever a felicidade que é encontrar a senhora – senhora? Continuemos na ilusão desmedida – a senhorita Gainsbourg em meio à farinha e aos sucos e leites envoltos em tetra park. Uma camiseta branca com uma frase, dístico em inglês, do qual pouco recordo e pra ser sincero nem um resto de atenção concedi porque quando o amor é à primeira vista, agora, sim, crase, a linguagem dos olhos fala mais alto, grita, urra, berra, geme, morde, chupa, e calma, muita calma, ainda. Porque nos falamos em silêncio, como é dos amantes em público, amantes discretos, desde logo, desde sempre, e que – de indiscrições as redes sociais andam cheias. Mas voltemos à padaria espiritual que é encontrar Charlotte Gainsbourg enchendo a cestinha de – de quê mesmo? Não consegui desviar do caminho divino que vai dos olhos à boca quase desconhecendo o nariz mas, sim, a propósito, reconhecendo nos cabelos negros um conforto onde pousar os dedos, enroscando juras eternas de felicidade e anéis infinitos que vão durar até a morte. Que medo. Que medo de descobrir na cestinha coisinhas para um filho e, pior, para um marido. Ah que injustiça se a senhorita Gainsbourg voltasse para casa – da padaria para casa – e na sequência do rumor metálico das chaves viesse um sonoro boa noite, meu amor, a voz máscula do varão e os gritinhos infantis da criança em regozijo diante do doce de ovos e creme de leite que mamãe Charlotte trouxe da padaria após quase ser devorada pelo meu olhar apaixonado. Aí seria a prova, não da inexistência, mas da falência de deus.

 

Deixe um Comentário