A casa, no presente

4 de janeiro de 2011

G. H. por Flávio Freitas, 2010

Meu irmão construiu uma casa.

Meu irmão construiu a casa do meu irmão.

Eu tenho dois irmãos.

A casa é de um e o projeto arquitetônico é do outro.

Antes que ela me mate, deixo claro: eu também tenho uma irmã.

Mas ela não construiu casa alguma, ao menos recentemente.

Ela diz que prefere viajar a construir casas.

Meus irmãos, que constroem casas, também gostam de viajar.

E viajam, construindo casas, projetando casas.

Meus irmãos – e aqui incluo minha irmã no plural – viajam: planejando casas, defendendo causas, contando causos, criando coisas, poetando cantos, bebendo mundos.

Meus irmãos são três, mas são múltiplos do infinito: são advogados, engenheiros, arquitetos, músicos, poetas, escritores, boêmios, artistas e, acima de tudo, loucos.

Eu adoro meus irmãos porque eles são loucos.

Eu, o caçula, sou o mais normal dos quatro. A responsabilidade é grande porque tenho que administrar a loucura dos três.

Talvez eu seja o mais louco dos quatro e por isso mesmo acredito ser o mais normal.

Noves fora os diversos graus de insanidade, por ter eu o coeficiente mais baixo – creio –, preciso cuidar deles: alguém precisa vigiar a loucura para que não escape pelas ruas, dobre esquinas, deixe pegadas na areia da praia, alcance o horizonte e se perca por aí.

Meus irmãos vão rir quando lerem isso. Porque, em verdade, em verdade, cada um cuida do outro.

E descuida, também. Porque somos uma família normal e não uma família perfeita como nos comerciais de margarina boa para o coração.

Se a nossa felicidade é autêntica é porque a nossa tristeza também é.

Mas, deixa eu falar, eu falava da casa do meu irmão construída pelo meu irmão e que a minha irmã ainda não viu porque – adivinhem – estava viajando. Longe das casas e construções.

É uma casa muito bonita, encravada em terreno à beira-mar.

A gente olha para o mar, e pensa: esse é o mesmo mar do tempo das caravelas. Dos portugueses, espanhóis, franceses, colonizadores e bucaneiros. Esse é o mar dos sonhos. Latada, pesca, arpão. A gente olha para o mar e vê o mar da sala da casa. A gente olha para o mar e vê o mar do corredor da casa. A gente olha para o mar e vê o mar dos terraços dos quartos da casa. A gente olha para o mar e vê o mar. A gente olha para a casa e vê o mar.

Aí, surpresa, a gente olha para a sala e vê um enorme retrato de George Harrison na parede da sala.

Pintado.

O que estaria fazendo um enorme retrato de George Harrison na parede da sala?

Pintado.

Isso: escapando da obviedade de um Lennon-McCartney.

Daí que me contaram que uma vizinha apareceu e perguntou se não era meu irmão no retrato, na época em que era doidão.

Eu logo pensei: que época? Que passado? Ele ainda é doidão.

Desde o tempo em que morávamos todos juntos numa mesma casa, também ela de traços inconfundíveis.

É muito importante uma casa para a vida de uma família.

Nós tivemos sorte, meus irmãos, minha irmã e eu, de morarmos numa casa especial. No seio – por que não dizer? – de uma família especial. Todos loucos.

Fica difícil explicar aqui o que aquela casa tinha de tão especial.

Fico nos detalhes:

-       tinha um quarto, que a gente chamava azul.

-       tinha um móvel, que a gente chamava preto.

-       tinha um banheiro quase oval, com portas quase ovais, com paredes de fórmica azul e verde (mas a gente nunca chamou de banheiro azul & verde, era só banheiro, mesmo).

-       tinha um balanço enorme, todo o quarto do casal era em balanço, e era enorme.

-       tinha um porta-lápis verde, no escritório do meu pai, com o nome de todos nós seis.

-       tinha um forro onde a gente andava, de cócoras, quando queria fugir do mundo.

Tinha mais coisas, eu sei, mas não vou falar porque eu estava falando dessa outra casa que acabou de ser construída e ainda não tem, coitadinha, muitas histórias a contar.

A não ser a história de nós quatro, retalhos da história de nós quatro, fragmentos da história de nós quatro, cacos de vida de nós quatro.

Que, de casas à beira-mar também temos algumas histórias pra contar.

No singular. Uma só. Casa. Única: os veraneios de muitos anos foram passados numa casa de telha vã. Onde a gente lavava o rosto numa bacia no terraço. Que naquele tempo se dizia alpendre. E o jardim era uma duna. E o mar era quente, o vento atlântico e o suco, de mangaba. Porque era verão e as mangabeiras.

Ah, as mangabas eram vendidas usando uma lata de óleo como medida.

E o coco partido para comer a laminha, usando uma fatia da casca como colher.

A Kombi do pão chegava às quatro da tarde.

E se andava descalços.

E se pegava bichos-de-pé, que davam uma coceirinha gostosa.

Os anos se passaram, algumas casas foram reformadas, outras morreram, foram vendidas, mudaram-se em apartamentos, e novas foram construídas.

Os verões passaram, se dispersaram, andaram além-Atlântico. Se perderam e se acharam.

Meu pai não teve tempo de ver a casa dos meus irmãos.

Mas ele ficaria feliz na casa dos meus irmãos.

Porque é uma casa construída à sua maneira. Uma casa para agregar e se unir. Uma casa para sonhar e realizar. Uma casa para se cultivar essa loucura sã que nos une – e que às vezes nos separa, também (já falei: abaixo a margarina).

Minha mãe teve tempo de ver a casa dos meus irmãos.

E ficou feliz na casa dos meus irmãos.

Porque, com tantas histórias para contar, ela emprestou à casa, ainda sem passado, um pouco do seu, do nosso.

Do nosso passado.

Do nosso futuro.

15 Já Comentaram para “A casa, no presente”

  1. k. lygia disse:

    Lindo!

  2. ana celia disse:

    Esa foi demias! Adorei! Amei! Ri e me emocionei! Ri muito, de felicidade!

  3. Laélio Ferreira disse:

    “Trabáio limpo”, Mário Ivo!

  4. San disse:

    Ter um cunhado poeta, outro publicitario acima da media e outro advogado tambem acima da media, pra mim é um grande privilegio!

    San.

  5. Luana disse:

    Difícil tirar o sorriso dos lábios…

  6. Flavio Freitas disse:

    Muito muito! Adorei. PQP e eu q pensava q era doido…

  7. joão batista da rua disse:

    Mário Ivo, uma palavra e uma exclamação: Lindo!

  8. Carito disse:

    ando sempre dizendo de quando em vez, quando encontro um poema curto que curto: ah! queria ter escrito esse! ando dizendo quando encontro um poema assim… ah! sim! comento nos blogs dos poetas amigos nessas poesias que me idente-e-fico-e-finco-o-dente: queria ter escrito essa!

    pois bem. aqui, com tanto bem, no blog do amigo-irmão MIDC, criados juntos, criando juntos, como não dizer… queria ter escrito essa!!! eita crônica de uma vida anunciada!!! acho que até tenho tentado, de forma fragmentada, lembrando ali o móvel preto, aculá o quarto azul, mas eis que o mano Ivo nos presenteia essa crônica-casa-barco-mar de frontispício-hospício de frente pro sol & chuva, chuva & sol, casamento da rã pousa com o rouxinol, na nossa mais abstrata tradu(i)ção – o concretismo da construção passa antes pela poesia, essa casa-várias que se continua e que se chama amor! assim, no tic-truque dos corações, assaltando lembranças, roubando passados para nos dar de presente e pirateando mares, todo homem é uma fam’ilha – porção de casas-mágicas cercadas de águas furtadas por todos os lados…

    while my guitar gently weeps…

  9. Jarbas Martins disse:

    construtivismo puro, mario ivo, o seu e o do seu parceiro flávio freitas. laélio sintetizou bem:”trabáio limpo”.

  10. carlos de souza disse:

    pustaquepariu, malioivo, agora vc superou todo mundo, cabra!

  11. Jarbas Martins disse:

    Acabo de fazer uma cobrança (desculpem o cabotinismo deste angicano) ao professor-doutor Marcos Silva,a propósito de uma lista, feita por ele, de nomes da nossa literatura (v. comentários de Marcos e o meu no Diário do Tempo, do Sérgio Vilar).É que a lista do professor (a quem muito admiro) não inclui nomes ligados às práticas literárias na internet.Não incluir o nome de Mario Ivo entre os grandes cronistas da nossa história (dentre os cronistas, ele cita apenas o meu inesquecível amigo e ex-colega do Ministério Público, Berilo Wanderley) é, no mínimo, um gesto de desdém ou preconceito, por parte dos literatos e profissionais do jornalismo impresso. Estou certo?

  12. Mario Ivo disse:

    mas, meu jarbas, se o guarda-civil não quer a roupa no quarador, fazer o qˆ, homem?

  13. Laélio Ferreira disse:

    Transcrevo, sem comentários:

    “Um pito em Orlando Tejo?

    “Memória do Concretismo
    Marcos Silva

    Li o texto de Orlando Tejo, que reproduz alguns poemas concretistas (ou próximos do Concretismo) natalenses dos anos 60 do século passado.
    Eu morava em Natal no ano em que a brochura mencionada foi publicada – 1966. Não possuo mais o exemplar (algum aluno pegou emprestado e não devolveu) mas lembro que havia diferenças de diagramação (*) em relação ao que saiu no Papo Furado: o poema “Infinitivo”, de Nei Leandro de Castro (**), formava uma diagonal da esquerda para a direita com a repetição da palavra “amar”, e não uma coluna vertical; o poema “Quarta operação fundamental”, de João Bosco de Almeida, começava com a palavra “eu”, na horizontal, dotada de espaçamento, seguida da palavra “dividido”, na vertical, abaixo e entre o E e o U, mais uma visualização que colocava o “verso” “sou quociente de mim” como um quociente de divisão e o “verso” “e só” como resultado da divisão; a “Marinha concreta”, de Anchieta Fernandes, também fazia uma espacialização das palavras que compõem os “versos” finais. Coloquei aspas na palavra “verso” porque é discutível, nesse gênero de poesia, o apelo a esse recurso poético – a espacialização sugere o anti-verso.

    Poesia Concreta merece crítica, como qualquer outro ramo literário e qualquer fazer humano. Para tanto, todavia, precisamos conhecer exatamente o objeto criticado, evitando fantasmagorias, que nada esclarecem. Defendo a crítica como argumento explicativo e demonstrativo, que não se restringe ao “gosto/não gosto”, ao descarte ou ao preconceito.

    Prefiro pensar que múltiplos gêneros de Poesia coexistem e até se iluminam reciprocamente. Para valorizarmos Zé Limeira, Othoniel Menezes e Zila Mamede, não precisamos jogar no lixo Nei Leandro nem Dailor Varela.”

    M O T E :

    Professoral pra cacete
    passar pito em Orlando Tejo?

    G L O S A :

    De cima de um tamborete,
    com a pose de um chanceler
    (tradutor de Baudelaire!),
    professoral pra cacete!
    Sacando o arcabuzete,
    atrapalhou-se, o badejo;
    nada fez, e foi pro brejo…
    - A memória é de elefante,
    muito infeliz o rompante:
    passar pito em Orlando Tejo?

    (*) Foi o autor da glosa quem enviou para o Poeta Jairo Lima o texto de Orlando Tejo. Publicada, a matéria, antes das aspas, tinha a anotação rotineira: “Enviado por Laélio Ferreira”. Como se viu, abaixo, a diagramação não foi obedecida, como estava no texto do genial paraibano – mea culpa. A tal “poesia concreta” (arre égua!) é complicada até para cópia no computador… O diabo é que o Professor Doutor Marcos Silva, um “uspeano convicto”, além da memória fenomenal – cáspite! – (v. acima), querendo me atingir nas entrelinhas, tem a mania de citar o nome do meu pai (Othoniel Menezes) nos muitos comentários que faz, aqui e em outros blogues (é um campeão nesse mister, anotando tudo o que produz, religiosamente, no seu muito bem fornido e lustroso “Currículo Lattes”), principalmente quando nessas minhas “cantigas de maldizer” maldigo as suas inefáveis traduções de Charles Baudelaire…

    (**) Nei Leandro de Castro é meu amigo desde a adolescência e continua sendo, acho eu.

  14. lissa disse:

    Lindo, mesmo.

  15. Carito disse:

    …e obrigado pela parte que me toca, nos toca, nos troca… nessa troca-toca tanto-tudo!!!

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