Arquivos de outubro de 2009

Adivinhe quem vem para o café-da-manhã: Marize Castro

sábado, 31 de outubro de 2009



Abrir alas para a poeta Marize Castro me faz, inevitável, o mais suspeito entre os suspeitos de sempre – aliás, de ontem, hoje e sempre, pois é claro que sempre tive uma queda pela moça (e ainda tenho que empurrar a cotoveladas o Sr. Woden Madruga, que tem barbas mais brancas e volumosas que a minha, e se arvora – com todo direito, admito – em ser fã número 1 da moça – e da sua poesia, claro). É muito bom, também, que um dos últimos cafés-da-manhã desta coluna (que se despede dos seus leitores provavelmente em meados de novembro – ao menos neste jornal) tenha a presença de Marize Castro. Ainda mais agora, faltando poucos dias para o lançamento de “Lábios-espelhos”, recente produção da poeta de “Marrons crepons marfins”, que 25 anos atrás causou furor (por que não dizer?) na Província. “Lábios-espelhos” será lançado dia 5 de novembro, quinta-feira, no terceiro piso do Midway. A ilustração que acompanha a coluna é do convite, arte de Wellington Dantas Cavalcanti, convite este extensivo a todos vocês. E o título abaixo é de Ana Cristina Cesar, poeta, que nem Marize, que o escolheu.

“Por afrontamento do desejo insisto na maldade de escrever”

Por que escrevo? Porque já não mais estaria aqui se não o fizesse. Porque o horror seria maior. Já não dormiria, não comeria, não amaria. Tudo permaneceria deserto. Lágrima. Por que a poesia? Porque ela é salvação. Regresso à infância. Retorno à vida – para o mais primitivo e mais refinado.

“Lábios-espelhos”: uma senha; um alumbramento; outro mundo criado; o mesmo mundo revelado. Poesia que se veste e se despe. Exibe-se e recolhe-se, aninha-se, desobedece, ascende e cai.

Aqui o móvel de tudo é o desejo. Cratera pura. Inextinguível. Irrepetível. Que o leitor entregue-se. Extravie-se. Complete o que falta. Retire. Acrescente. Ouça esses lábios que falam e esses espelhos que escutam – há apenas revelação, nenhuma explicação.

“Lábios-espelhos”: recompensa por intensa vigília. Operação mágica. Nada se tornou tudo. O leitor escutará esse silêncio? Afasto-me. Minhas leis são lírios – lírio-amarelo, lírio-branco, lírio-dágua, lírio d’alma. O instante de vida e morte chegou. Lábios reconciliam-se. Espelhos refletem-se. Aqui tudo é perda. Tudo é flor. Os olhos do abismo erguem-se, amantes insepultos clamam por inocência.

“Lábios-espelhos”: invenção de mim mesma; salto mortal; renascimento; outridade. O que há de mais breve e eterno. Túnel transparente. Intenso desejo de ser. Intenso desejo de voltar a ser. Ávidas marcas da alma. Rasantes pelo teto. Nostalgia do alheio. Pequenos delitos apontam para a noite. A vida e sua completude. Banhada de vida e morte, sempre estrangeira, torno-me o que sempre fui: ritmo e incêndio.

Por isto, estes versos:

Espere-me lá fora.

Ainda não estou pronta.

Esqueci meu colar de estrelas

meu kimono

minha zori

meus adereços de gueixa

Minha língua te recompensará.

Ela (esfomeada) saciará tua fome.

Ela (sedenta) te levará ao leito

mais próximo.

Ela (saliva e cristal) revelará o enforcado:

– seu destino, seu nome.

Espere-me lá fora.

Aqui há um naufrágio púrpura,

um rio de mel que corre entre lábios-espelhos.

Dele, sou filha.

[Marize Castro]

Prosa

“Cresce também uma boca onde a fome a reclama, e surgem as asas que o sonho deseja…”

Miguel Torga

Bichos

Verso

“Naquele / sábado / a música / daquele / sábado.”

José Bezerra Gomes

“Sempre sábado”

De burrices e canalhices

sexta-feira, 30 de outubro de 2009


“Posso ser burro e meio canalha, mas uma coisa eu aprendi: gato ou gata não entendem ironia ou sarcasmo.”

A frase foi pinçada de um texto de Ivan Lessa, publicado no sítio da BBC Brasil, direto de Londres, ant’ontem.

Fora do contexto (vão lá e leiam), que sentido tem?

Nenhum, ou todos, que o leitor é voz ativa nesse processo de comunicação.

Há dias em que a gente escreve alhos e alguns leitores entendem bugalhos. Noutros a gente escreve bugalhos e uns, mais burros, entendem aquela palavrinha feia no plural.

Tem leitor burro? Tem, sim senhor. Tem ainda os que, além de burros, são mal-intencionados – o hífen de mal-intencionados pode até ter sumido mas as más intenções continuam. E quando são boas, claro, são más também.

É claro que o distinto senhor, a aprazível senhora, que me lêem agora, não vestiram a carapuça. Nem motivos têm. Ou não. A burrice do vizinho é como a grama: verdejante e sincera.

Enfim, ando meio confuso enquanto traço essas bem-traçadas linhas, sem régua ou compasso. Desenho à mão livre, mesmo, sacam?

É que ando, mais que confuso, cansado da canalhice alheia. Da burrice, não, porque a burrice é intrínseca. Já a canalhice é adquirida. Trabalhada. Lapidada. Estudada. Tem gente que tem até PhD em Canalhice. Este Ryo Grande tem uma ruma deles. E delas, também, que eu sou um defensor incondicional da igualdade dos sexos.

Por exemplo, quando Lessa se declara “burro e meio canalha”, ele na verdade está ironizando e sacaneando com outro tipo de burro e outro tipo de canalha que não conseguem entender como alguém se declara burro e canalha. Mesmo que pela metade, no caso do segundo adjetivo.

Porque os verdadeiros burros e canalhas nunca estufarão e peito e se assumirão como tal e por inteiro. Até que encontram alguém diante deles com a ousadia inesperada de chamá-los tal qual são:

– Burros.

– Canalhas.

*

Pop art

As obras do artista plástico (e publicitário) Chico Quevedo chegam a esta City diretamente de Pelotas (onde nasceu) e Criciúma (onde trabalha) no formato de pôsteres – comercializados com exclusividade pela Fast Frame (Dão Silveira Mall).

Pop art II

Enquanto isso, muito além da corrente, a www.artnet.com dá início a um leilão on line de arte moderna e contemporânea. Os ricos desta Capital bem que podiam fazer seus lances – tem obras de Andy Warhol (lance inicial de 40 mil dólares), Keith Haring (95 mil), Nam June Paik (160 mil), e uma belezura de Man Ray por apenas US$ 11,5 mil. Mais barato só um Duchamp (2,8 mil) e um objeto estranho de Yoko Ono (1,8 mil) intitulado “Mend piece for John”.

Carrapetas

DJ Macacco volta às ativas amanhã, sábado, no Bule Café (Av. Airton Sena do Brazil), acompanhado de Os Bonnies – e avisa: “destruindo toda forma de dançar”.

SOM

A Camarones Orquestra Guitarrística é a atração do Som da Mata no próximo domingo, primeiros de novembro, no Parque das Dunas, 16h30, ingressos – sempre é bom lembrar – pela merreca de R$ 1.

Men sana

Marcada para o próximo 9 de novembro uma audiência pública para debater os serviços de saúde mental deste distinto Município. Na luta e na cobrança pelos ajustes de conduta da Prefeitura, os vereadores Franklin Capistrano e Hermano Morais, mais a promotora Elaine Cardoso. Ao menos dois CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) deveriam ter sido instalados este ano – que, como se sabe, se encerra dentro de dois meses.

mente insana

“Sou um crítico contundente dos Autos [de Natal] anteriores. Fizeram coisas que fugiram à essência: um Auto contado por [Newton] Navarro… Como jornalista quis apoiar, tentei levar para o SBT nacional, mas ninguém queria porque era um espetáculo circense, sem compromisso com a história de Natal.” – a melhor coisa que o Diário de Natal publicou nos últimos meses: a fala do neo-presidente da Funcarte e sua idéia de compromisso com a “história de Natal”.

Quer dizer que agora a cultura potyguar vai ser pautada pelo padrão Silvio Santos de qualidade?

Segurem esse rapaz, senão é capaz de ele cuspir no túmulo de Navarro e outros mortos. Ou fazer coisa pior.

Aquele abraço

Diógenes da Cunha Lima liga, todo animado e feliz, contagiante. Me lê uns versos de Hilda Hilst. Ri. Sorri. Ri novamente. Fica de mandar os versos por email, para publicação. Não manda. Que importa? Ser poeta da alegria é muito mais importante.

Prosa

“O teatro do mundo tem palco e bastidores. As palmas da platéia festejam somente os dramas encenados.”

Miguel Torga

Bichos

Verso

“Senhor, mercantilizaram a vida, / com escassez geral da alegria.”

José Bezerra Gomes

“Com a melancolia…”

Notas floridas de quinta(-feira)

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Máxima

“Jornalista é bicho danado. Quer sempre adivinhar primeiro pra divulgar depois.” – bela definição de alguém que não é, mas circula pelo meio.

Botânica

Por falar em jornalistas, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais deste Ryo Grande (existem os amadores?), aderiu à onda de reinaugurações: anuncia – para não sei quando – coquetel de reinauguração da sede e inauguração da Galeria de Fotos dos ex-presidentes, batizada “Jornalista Rogério Cadengue”. Bravo!

A reinauguração tem seus motivos: o Viveiro Marina (vale o merchan, que somos corporativistas), doou plantas e vasos, “que deixaram a nossa sede mais bonita”, como bem informou a presidente Nelly Carlos – que, segundo a opinião da coluna, já embelezava, e muito, a instituição.

Botânica II

A turma anti-tabagista pode até chiar – mas nem deveria: o Shopping Cidade Jardim contratou o arquiteto Eric Perman para projetar uma “praça contemplativa”, com plantas e banquinhos para os amantes do tabaco se sentirem menos excluídos da manada. Palmas.

Botânica III

E como nesses dias, vésperas de Finados, o comércio das flores se intensifica, jornalistas desempregados podem tirar um troco na porta dos cemitérios (antes que entrem e não saiam mais) – mas atenção, nada de trabalhar na ilegalidade: compareça a Semsur e cadastre-se – o prazo final é hoje.

Seis ou meia-dúzia

Desta vez o Sinjorn não tem o que reclamar: na Funcarte, Capitania das Artes, sai César Revorêdo, entra Rodrigues Neto. Ambos jornalistas.

De lambuja, da autoria do Auto de Natal 09, sai Clotilde Tavares, entra Edson Soares. A primeira é médica, mas como blogueira atua melhor do que muito jornalista. O segundo vem dos quadros da TV Ponta Negra. Como Rodrigues Neto – que, aliás, começou mal ou ao menos maleducadamente: Clotilde Tavares soube da mudança através dos jornais.

Ora pro nobis

Enquanto, fósforos na mão, ensaia acender a vela dos santos ou a do demo, Garibaldi (Alves) Filho aproveita, mais uma vez, sua quota como senador e dá um empurrãozinho na publicação do livro “Dom Marcolino Dantas, por ele mesmo”, editado pelo Senado Federal e com lançamento hoje, 19h, no Midway.

O Cônego José Mário de Medeiros autografa a antologia, que reúne, além da produção poética de Dom Marcolino, homilias, discursos, bênçãos, pregações etc. etc.

Ave sangria

Mais pro profano do que pro sagrado – aliás, sangrado – é o outro lançamento da noite: dez anos depois, Civone Medeiros (ex-Enovic) relança suas “Escrituras sangradas – toscas fatias de escrevinhaduras” (safra 99), e aproveita para lançar o Livro 2 – “Ave de arribaçã ou a propósito de Viena e outros ondes”, que começou a ser escrito na virada do século, quando – confidencia o release – “voa para a capital austríaca e vive uma nova fase de sua vida, com a filha Bianca (hoje uma linda moça) e um amor”.

Nossa. Viajar pra Viena d’Áustria com a filha e um amor é tudo na vida, né não?

Os prefaciadores sangrados são Bianor Paulino (book one) e João Batista de Morais Neto (book two).

No Nalva Melo Café Salão, 18h.

Ó

Começa hoje a Feira do Livro do Seridó. Em Caicó. Agora, com o perdão dos organizadores (a quem respeito e estimo tanto), dizer que Gabriel, O Pensador, é um “grande nome da literatura nacional” é quase um atestado de ignorância. Ou de mau gosto.

Senilidade

Você não tem nenhuma dúvida que está ficando velho quando começa a achar esquisito nomes de bandas como “Dionne e UpFront” e “Acoustic and Grooved” – pois, as duas se apresentam hoje e amanhã, respectivamente, no Seis em Ponto Bar & Petiscaria. Sempre a partir das nove da noite.

Estado das coisas

Hoje, pra quem gosta – e como tem gente que gosta, fazer o quê? – tem lançamento do DVD “Um estado de espírito”, do grande, fenomenal, imbatível Ricardo Chaves. Na Central do Carnatal, 19h.

apócrifos

Para os amantes da rede mundial de computadores – tuiteiros, blogueiros, facebookeiros, orkuteiros e demais eiros – recomenda-se passar na banca de revistas mais próxima e adquirir “Caiu na rede”, da jornalista Cora Rónai (de O Globo), sobre textos falsos da internet que se tornaram clássicos. É bem velhinho, data de 2005 (o que nos tempos do twitter é uma eternidade), mas está pela merreca de R$ 9,90, ou coisa assim.

Então, quatro anos atrás dona Cora já escrevia: “O meio-de-campo da internet está tão embolado, e os apócrifos se espalham com tal velocidade, que qualquer tentativa de descobrir ou estabelecer autorias é, praticamente, uma batalha perdida.”

Prosa

“Naquela grande aridez, só a vida que pulsava sem ruído conseguia triunfar.”

Miguel Torga

Bichos

Verso

“Que mais / te vulnera / infante?”

José Bezerra Gomes

“Adivinhação”

Para viver um grande amor

quarta-feira, 28 de outubro de 2009


Para viver um grande amor é necessário antes de tudo estar apaixonado. A premissa parece redundante, inútil, banal, até mesmo pueril, e por conseguinte desnecessária, de tão lógica que é. Mas é imprescindível. Não se vive um grande amor sem paixão. Pode-se viver um médio, pequeno, micro-amor. O que – quem sabe (e provavelmente é, mesmo) – é até mais desejável, enquanto racional e tranqüilo. A placidez, nos grandes amores, só existe em breves momentos. Naqueles onde (e quando e como e por que), cansados de uma entrega integral e íntegra, os corpos se abandonam num abraço frouxo mas firme, os olhos se deixam navegar à deriva nos olhos do outro e vice-versa, jogo de espelhos sem começo, meio ou fim.

Para viver um grande amor deve-se ignorar solenemente o tempo. Deve-se recusar o passado e imaginar que o futuro não existe além daquele momento presente. Deve-se acreditar piamente que será eterno (mesmo com o chato do Vinicius de Moraes martelando na cabeça a terrível conclusão – “enquanto dure”). Sim, porque todo Grande Amor é Eterno. E durável. E duradouro. E infinito (mudança de versos: “que seja eterno, enquanto infinito”). Deve-se confiar – cegamente, como um fiel rejeita a ciência e abraça a fervura quente do milagre – que é possível parar o tempo, os ponteiros e todos os relógios do mundo. Que o mundo, a propósito, não existe além do refúgio criado pelos amantes, para viver seu Grande Amor.

Para viver um grande amor faz-se necessário a mudança para uma ilha deserta. Sem pegadas na areia além das suas. E nem é tão importante que esses passos se repitam na areia lado a lado – eles podem caminhar às vezes mais à frente, às vezes mais atrás, outras trilhando a mesma vereda, que nada mais é senão seus próprios passos. (“Olha! Aqui se confundem. Não se sabe mais qual a marca de quem. Se sobrepuseram. Tornaram-se um.”)

Mas, para viver um grande amor, mesmo numa ilha deserta, é importante saber que não existem ilhas desertas. Então, é imprescindível manter a força dos músculos para outras atividades que não apenas o ato mágico e único do amor. É imperioso dedicar-se à construção de fortes, de paliçadas, de fossos de proteção, de trincheiras, de casamatas. É necessário vestir couraças, armaduras, peitorais, coletes. Até para desvesti-los depois. Ainda que a nudez nos torne frágeis. Vulneráveis, somente um para o outro.

Para viver um grande amor é preciso reconhecer que só esse mesmo grande amor pode decretar seu fim. E, ainda assim, eterno, enquanto infinito.

*

“Vertigem”

Começou domingo passado e segue até dezembro a nova mostra de osgemeos (grafado assim mesmo), Gustavo e Otávio Pandolfo. Consagrados como grafiteiros, há muito romperam os limites dos muros urbanos e freqüentam o interior e o exterior dos melhores museus do mundo.

Em Sampa, claro, no Museu de Arte Brasileira da Faap.

Groove

Dentro do terreiro das programações “imperdíveis”, logo mais à noite, 20h, no TAM, o secular Teatro Alberto Maranhão, Serginho Groove faz jus ao apelido e reúne convidados, todos ilustres como o anfitrião. Chico César, Dorgival Dantas e Khrystal – entre outros – se apresentam ao lado do baixista e participam da gravação de novo DVD.

Lar

O Centro Acadêmico Amaro Cavalcanti, do curso de direito da UFRN, promove logo mais à noite debate sobre “Direito à Moradia” – na mesa, a arquiteta Dulce Bentes, o procurador-geral do estado Francisco Sales e o coordenador do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas, Wellington Felipe.

No NEPSA (Goiabinha), 19h.

Cadeiras

A si-la-bAs Cia. de dança é a única representante destas ribeyras no Festival Internacional de Dança do Recife e se apresenta, hoje, 17h, no Teatro Barreto Júnior. “Sente-se” é dirigido por Mauricio Motta, que divide o palco com Anízia Marques.

Dois em um

Contagem regressiva para dois próximos lançamentos literários. A proximidade em questão não se refere somente ao tempo: dia 5 de novembro, Alex Medeiros e Marize Castro dão à luz fluorescente do Midway suas últimas crias – o primeiro no foyer do Cinemark, com direito a pipoca e guaraná; a segunda, quase em frente, na livraria.

Dangerous

“Filmar é perigoso. Escrever é perigoso. Viver é perigoso. São demais os perigos desta vida – e não vêm somente de balas perdidas e governos demagógicos, os artistas demagógicos podem ser perigosíssimos!” – do professor-doutor (e ainda por cima uspiano) Marcos Silva, no Substantivo Plural, ontem.

Prosa

“Inteiramente esquecido da altura a que estava, procedera como se viver ali, perto do céu, fosse viver na terra, sem precisão dos braços cautelosos agarrados a nada.”

Miguel Torga

Bichos

Verso

“Confesso-me / de assim / ter sido // Ainda que não fosse mais”

José Bezerra Gomes

“Lápis”

Destinos traçados

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Passei grande parte da minha vida ouvindo essa história. A de como Estevam José Ribeiro Dantas deixou a carreira médica para abraçar a batina, contrariando – ou não – o seu destino.

Sua mãe, Joana Evangelista dos Prazeres escreveu para um parente consultando onde enviar três dos quatro filhos varões que tinha – o restante da prole era constituída de seis mulheres, que, naquela época não tinham por que estudar.

A resposta foi que seria mais em conta enviá-los a Roma – que o mundo, naquele tempo, tinha já seus suspiros de globalização. E assim foi: embarcados em 1877, seguiram João Damasceno, destinado a ser padre, Estevam, que deveria ser médico, e Miguel Antônio, que deveria concluir apenas os estudos básicos, destinado que já era para cuidar das terras da família.

Certo dia, já em Roma, Estevam vê o irmão João mui preocupado escrevendo carta à mãe. Indaga daqui, indaga dacolá, o irmão confessa que não quer mais ser padre. “Pois”, respondeu-lhe Estevam, “não diga que não vai ser padre – diga apenas que houve um engano: quem tem vocação para ser padre sou eu.” E acrescentou: “Esse desgosto você não vai dar à nossa mãe.”

Dito e feito, estudou no Colégio Pio Americano e na Universidade Gregoriana, mas se ordenou padre em Fortaleza, em 1884. No dia da sua primeira missa – naquele tempo, literalmente “cantada” –, na sua São José de Mipibu natal, libertou dois de seus escravos. Três anos depois, com o abolicionismo tomando corpo, libertou os últimos que ainda tinha e pediu à família que fizesse o mesmo, no que foi atendido.

Daí seguiu sua carreira eclesiástica, passando por Assu, Paraíba, Mossoró (onde foi incumbido da fundação do Colégio Santa Luzia), Macaíba e Natal (onde também empenhou-se na construção da Igreja de São Pedro, no Alecrim).

Quis o destino, também, que sua irmã, tendo ficado viúva e com extensa prole, fosse acudida pelo Cônego Estevam, que pediu-lhe para cuidar do caçula, também chamado Estevam, e – olha só por que sei toda essa história – meu avô materno.

O Cônego Estevam queria para o sobrinho-filho o mesmo destino que ele mesmo tinha se imputado, naquele longínquo dia em Roma. Meu avô tinha já suas idéias radicais (entre elas o espiritismo) e não contou conversa – disse claramente que não, padre não queria ser.

O tio-pai tampouco se fez de rogado: “Então seus estudos terminaram, nada de medicina, nem qualquer outro curso superior – minha responsabilidade com você termina aqui.”

Por ironia do destino, o desgosto que o Cônego Estevam evitou que sua mãe tivesse, ele mesmo acabou tendo.

*

sina

Ser jornalista é muito bom – o danado é saber as más notícias antes dos outros.

Auto

Começou ontem, e vai até a próxima sexta, 30, as inscrições para quem quer participar do Auto de Natal 2009: compareçam na Funcarte (com César ou sem César), levando cópia do RG, CPF, comprovante de residência e foto 3×4.

Das 9h às 16, informações pelo telefone 3232.4948.

Cartaz

Começou ontem a III Semana Estadual de Políticas sobre Drogas – além dos esperados debates sobre o combate às drogas, o Conen/RN (Conselho Estadual de Entorpecentes) promove o III Concurso Estadual de Cartazes com o tema “Prevenção ao uso indevido e abusivo de drogas”. Para alunos do ensino fundamental das escolas públicas e privadas.

Informações pelo telefone 3232.7889.

Vida e Obra

Confirmada – para daqui a um mês – a palestra onde Josoniel Fonsêca da Silva abordará a “Vida e a Obra do Jurista Odilon Ribeiro Coutinho”. Dia 27, 10h, na Procuradoria Geral do Estado, Afonso Pena, 1155, Tirol.

Políticas públicas

Resultado dos estudos de professores e alunos do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRN, será lançada hoje (19h, Midway) a coletânea “Desafios da gestão participativa no Nordeste”, organizada por Ilza Araújo Leão de Andrade.

Vinil

A dica é do cardiologista Cícero Almeida, interessado não apenas nas coisas do coração mas também naquelas que envolvem a áudio-fidelidade musical: quem ainda curte vinil não pode deixar de visitar três sítios na internet – www.elusivedisc.com, www.needledoctor.com e www.acousticsounds.com.

Pergunta

A quem interessa realmente saber que o deputado Fábio Faria está namorando com a apresentadora de TV Sabrina Sato?

Estilos

Os boxes Prosa e Verso desta semana acolhem o estilo discretamente elegante e explicitamente conciso de Miguel Torga, e o estilo, mais que elegante, sóbrio, e, mais que conciso, mínimo, dos versos de José Bezerra Gomes.

Prosa

“Simplesmente, quem brinca aos afogados, afoga-se.”

Miguel Torga

Bichos

Verso

“Quem em meu barco embarcar / em meu barco soçobrará”

José Bezerra Gomes

“Arca”

Efemérides

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

As efemérides de ontem, hoje e amanhã merecem registro. A começar, claro, por hoje: há 111 anos nascia Luís Ferreira Cunha da Mota, mais conhecido para a posteridade como Padre Mota. Nasceu em Mossoró, onde foi não apenas vigário da Matriz de Santa Luzia como prefeito da Capital do Oeste. Mestre Cascudo – em “Notas e documentos para a história de Mossoró” (1953, circa) – vai além: o então padre (chegaria a monsenhor) Luís Ferreira da Cunha Mota foi “o primeiro Cura da Catedral”. Isso lá pela década de 30, século passado.

Na década de 20, Padre Mota foi um dos defensores da Cidade diante dos ataques do Rei do Cangaço. O Correio do Povo, de 19 de junho de 1927, informa inclusive sua posição na defesa heróica: aquartelado no Telégrafo, junto, entre outros, com o Tenente Abdon Nunes e o Cônego Amâncio Ramalho. O sobrenome é Cunha da Mota ou da Cunha Mota?

Não sei, deixo o detalhe pros pesquisadores.

O ataque de Lampião aconteceu em 1927, mesmo ano da nossa segunda efeméride – esta, de ontem: em 25 de outubro daquele ano era promulgada lei garantindo o voto das mulheres. A idéia já era defendida pelo então candidato Juvenal Lamartine, o projeto de lei foi apresentado por Adauto Câmara, relator Antônio Bento (sim, o crítico de arte), e sancionada pelo presidente José Augusto. Hoje, o que não falta é mulher por estas ribeyras, ditando, ordenando, reinando e fazendo coisas que, 82 anos atrás, eram então inimagináveis. Dinheiro, mulher e bicho-de-pé são as três melhores coisas do mundo, reza um dito popular – mas isso é outro papo.

A terceira e última efeméride é para o dia de amanhã: em 27 de outubro de 1872, nascia Ezequiel Lins Wanderley, nosso Herói apenas pelo fato de ter organizado a primeira antologia de poetas deste Ryo Grande.

O que não é pouco.

Ezequiel Wanderley nasceu em Açu – onde nascia nove entre dez poetas de antão – filho de Luiz Carlos (considerado o primeiro médico e o primeiro romancista deste Ryo Grande), irmão de Sinhazinha e Segundo Wanderley e tio de Jayme dos Guimarães e Palmyra Wanderley. Participou da maioria dos jornais literários da época, onde adotava pseudônimos engraçados, como Carlos d’Alva, Eduardo Worms, Gil Pimpão e Juquinha das Mercês.

Além de ter publicado “Poetas do Rio Grande do Norte”, em 1922, entra para a história das famigeradas letras potyguares por ter sido proprietário do Potiguarânia – que, vendido a um certo Jorge Fernandes, se transformaria no famoso Café Magestic.

*

clima

Ezequiel Wanderley reuniu 108 poetas em sua antologia – ali estão, entre outros, Auta de Souza, Abner de Brito, Ferreira Itajubá, Henrique Castriciano, Jorge Fernandes, Juvenal Antunes e Nísia Floresta.

Em 1993, graças aos esforços de Carlos Lima (da finada editora Clima), de Abimael Silva, (do Sebo Vermelho, ainda não editora), e de Jácio Torres (Sebo Cata Livros), foi publicada uma 2ª edição fac-similar.

“Diante do abusivo atraso nos pagamentos (sete meses, em alguns casos) dos grupos e artistas que foram selecionados legalmente em editais públicos pela Fundação José Augusto (FJA), no período de 2008 e 2009; da indefinição de datas certas para realização desses depósitos; e do encerramento da planilha orçamentária de 2009 no final deste mês, adiando todos os pagamentos para 2010, convocamos todos os grupos e artistas para participarem do Ato de Ocupação da Fundação José Augusto, nesta segunda-feira (dia 26/10) a partir das 07h30 da manhã.” – nota encaminhada pela galera da Tropa Trupe Cia de Arte aos artistas deste Ryo Grande.

Hoje, pois, sete e meia da manhã, anos depois, décadas depois da famosa – e folclórica – “Passeata do Bode”, a classe artística [sic] reclama o que de direito.

Dubem

Flávio Rezende é o entrevistado de hoje do Conversa Franca (SimTV, 12h30).

Obscuro objeto do desejo

“Em se consolidando as candidaturas de Iberê, pela situação, e de Rosalba, pela oposição, não é possível prever de qual lado ficarão Robinson, João e Carlos Eduardo. Desnecessário dizer que desejo, torço e trabalho para que nenhum deles apóie a candidatura da oposição conservadora. Mas não ficarei surpreso se, como tantas outras vezes, os fatos políticos contrariarem meu desejo.” – do deputado Fernando Mineiro, com os dois pés bem atrás.

Glória Pires

Pra quem pariu – na real – a belezinha da Cléo Pires, parir Lula em “O filho do Brasil” – mesmo que na ficção – deve ter sido um verdadeiro trabalho de parto.

Prosa

“Que é feio servir-se a gente dos seus dons naturais para desinquietar lares alheios.”

Miguel Torga

Bichos

Verso

Natal, cidade do já teve, / te-queremos assim mesma, / com um palácio que já foi presidencial, / onde passou a funcionar o Wander Bar”

José Bezerra Gomes

“Evocação da cidade…”

Adivinhe quem vem para o café-da-manhã: Luiz Gonzaga Cortez

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Cultura 241009

Jornalista e pesquisador, Cortez retorna a esta mesa com banquete farto de histórias, sobre tempos idos e presentes. Leiam com vagar, porque hoje é sábado.

Um recanto turístico Esquecido no Seridó

Não podemos chamá-la da região paradisíaca, exuberante ou cinematográfica, mas entre os municípios de Campo Redondo e Currais Novos, no semi-árido, cerca de 155 quilômetros de Natal, estão os sítios oriundos da primeira fazenda que desencadeou um dos pólos de desenvolvimento daquela micro-região geográfica do Seridó potiguar. Da primitiva Fazenda São Miguel, implantada pelo Capitão José Gomes de Melo, que construiu a casa-grande em 1866, várias famílias se instalaram na área, num longo processo de casamentos endogâmicos que uniram pessoas oriundas de Picuí/PB, Goianinha/RN e do oeste potiguar. Apesar da escassez de água, clima quente, ambiente hostil (por causa dos animais selvagens, como onças, gatos do mato, cobras e outros espécimes), o ambiente hoje tem locais panorâmicos e históricos esquecidos da mídia turística oficial e privada. Os açudes com muita água, cascatas permanentes, casarões seculares, um sítio arqueológico com inscrições rupestres e homens que preferiram ficar solteiros para cuidar de caprinos e ovinos e, assim, curtirem a vida sem preocupações.

Mas o celibato de quase 10% da população da comunidade rural de São Luiz, que ocupa 36 habitações antigas, não é o detalhe mais importante da micro-região que engloba os sítios São Miguel, São Luiz, Santa Rita, Pedra Branca, Grossos e Condado, congregando os descendentes e herdeiros de José Gomes de Melo, Manoel Pegado Cortez, Antonio Xavier Dantas, o Pachier, Lourival Gomes de Assis, Manoel Gomes de Melo (irmão de José Gomes de Melo) e Francisco Gomes. Estima-se que residam 120 pessoas, vivendo da agricultura e pecuária. Eduardo Xavier Gomes, filho de José Xavier Gomes, estudante de ecologia, mora em São Luiz, planta tomates e maracujás numa vazante e em terras irrigadas, defende a preservação dos animais selvagens, como o gato maracajá, mas lamenta profundamente o abandono em que se encontra a casa-grande do antigo Sítio São Luiz, construída por Manoel Pegado Cortez, em 1870, que casou com Maria Senhorinha Dantas. Em virtude do falecimento do marido, a região notabilizou-se com a administração da viúva, Maria Senhorinha Dantas Pegado Cortez, a Marica Pegado, uma culta mulher que soube explorar o casarão como hospedaria, atraindo os viajantes, fazendeiros e políticos do Estado.

O casarão de Marica Pegado está abandonado, caindo aos pedaços, servindo de abrigo para os morcegos, cobras, aranhas e maribondos caboclos. Ninguém se atreve a entrar no velho e histórico prédio que mereceu um estudo da professora Eva Cristini Arruda Câmara Barros, da UFRN, “Estalagem de pessoas e impressos: Sítio São Luiz, casa de Dona Maria Senhorinha (Vila de Currais Novos/RN – 1870)”. “É uma vergonha. A casa grande deveria ser recuperada pelos poderes públicos, como a Fundação José Augusto e outros órgãos”, afirma Diva Gomes Xavier, do Sítio São Miguel, recentemente recuperado por familiares (Odiva Gomes Dantas/José Nilton, Nivaldo, Eduardo e a própria Diva), num mutirão que custou R$ 6 mil.

No trabalho da professora Eva Barros, no qual relacionou 16 títulos na bibliografia, verificamos a importância da hospedaria de Marica Pegado, ao lado de uma estrada carroçável que ligava Natal a Currais Novos, entre 1800 e 1927. “Os resultados alcançados apontam que a residência de D. Maria Senhorinha, por ter funcionado como uma estalagem situada no caminho entre os longínquos horizontes de uma área rural e a capital do estado, Natal, acabou por fazer parte do roteiro dos que ali passavam, logrando reconhecimento e se tornando em um local apropriado às amizades, conversação, amabilidades, ou seja, um espaço receptivo à sociabilidade”, registra a professora. Eduardo Xavier Gomes afirma que um filho de Napier Pegado Cortez (filho de Alfredo Pegado Cortez), Sérgio Cortez, teria feito gestões junto a FJA para tombar o casarão ao Patrimônio Histórico do Estado, mas desconhece os resultados. “Quanto mais tempo demorar, mais cara ficará a sua recuperação”, lembra Eduardo.

Os casarões da região de São Luiz/São Miguel são espaçosos, arejados e confortáveis e apropriados para as pessoas que gostam de viver bem e em locais aprazíveis, próximos dos terreiros, vacarias, riachos, açudes, roçados, galinheiros e hortas. São locais onde se sente o cheiro da terra, dos animais e onde se ouve o canto das aves e dos passarinhos. De onde se vê a passagem rápida dos gatos maracajás, raposas e veados, sem contar os preás que abundam a região, um verdadeiro perímetro panorâmico de cerca de 6/8 quilômetros quadrados, após a Serra do Doutor.

Além da cascata e do pequeno sítio arqueológico da Pedra Branca, o turista pode conhecer os rapazes donzelos (atenção: não são homossexuais!), campesinos fortes e dispostos a duros trabalhos do campo, tais como cuidar de caprinos e ovinos. “É um fato interessante termos vários homens que preferiram ficar solteirões. Motivo? Não sei, mas acho que cada casa é um caso diferente. Temos José Moreno, Fernando Dantas, Antonio Cortez, Chico de Francisco Ramalho, José Cortez, filho de Hélio e os da família Belchior: Chico, Enilson Oliveira, Eugênio, dentre outros, cujos nomes não me lembro. Todos são homens de verdade, em todos os sentidos, de várias faixas etárias, gente boa e honesta. É um percentual elevado para uma comunidade pequena que vive em 36 casas. É ou não é?”, indaga Eduardo. A resposta cabe aos especialistas. Que tal a nossa UFRN se interessar e enviar estudantes da área de ciências sociais e humanas para um amplo estudo acadêmico à região de São Luiz/S. Miguel a 30 quilômetros de Currais Novos? Melhor do que conhecer túneis profundos e inundados de minas falidas. [Luiz Gonzaga Cortez]

Prosa

“Meus escritos tratavam de você, neles eu expunha as queixas que não podia fazer no seu peito.”

Franz Kafka

Carta ao pai

Verso

“Publicar – é o Leilão / Da nossa Mente –”

Emily Dickinson

“Publicar…”

A volta da Catita

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Cultura 231009


Aliás, Catita 03: a última locomotiva a vapor deste Ryo Grande, aqui chegada há mais de um século e atualmente abandonada num galpão do Museu do Trem em Recife.

Abandonada talvez é modo de dizer, né? Se fosse aqui, neste Ryo Grande sem Norte – e não é complexo de vira-lata, não – eu até acreditaria em tal abandono, mas, enfim, não será à toa que mais verde sempre nos parece a grama do vizinho.

O que importa é que a Catita 03 está de regresso a estas ribeyras, como na volta do boêmio. Uma história e tanto a desta locomotiva: adquirida em 1906, juntamente com outras 25, esteve presente na inauguração da Ponte de Igapó, dez anos depois, e também na da ponte de concreto, em 1970 (governo do Monsenhor Walfredo Gurgel). Já nesta última data era a única locomotiva a vapor funcionante: todas as outras tinham sido desativadas e substituídas por máquinas diesel-elétricas.

A Catita 03 ainda seguiu na lida diária, até 1975, realizando manobras internas no pátio das Rocas, quando foi enviada para a REFESA, na capital pernambucana. Em 1998, a aposentadoria foi definitiva e a Catita “abandonada” no tal galpão.

Cinco anos depois, graças às pesquisas de Ricardo da Silva Tersuliano, a velha máquina e seu reboque foram localizados.

O Instituto dos Amigos do Patrimônio Histórico, Artístico Cultural e da Cidadania (IAPHACC) se mobilizou, a Funcarte colaborou, o IPHAN/RN fez uma perícia atestando a identidade da Catita, e técnicos do CTGÁS se encarregaram do projeto de restauração e conversão do combustível e a construção de três novos vagões.

A Catita 03 está de volta.

*

EFCRGN

1906 é o ano da inauguração do primeiro trecho da então Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte, com a presença do presidente Afonso Pena. Dois anos antes tinha chegado ao estado o engenheiro Sampaio Correia: o projeto de uma ferrovia fazia parte de um plano maior de obras contra a seca.

OLIVEIRA

Valéria Oliveira (mais Jubileu Filho, Paulo Oliveira e Rogério Pitomba) segue em frente com sua turnê “no ar”: hoje se apresenta em Pipa, no Espaço Gatos de Rua. A novidade é que antes do show (22h), rola um jantarzinho (21h) – nada básico: o menu é assinado pela chef Clara Nunes (from Pernambuco) e custa R$ 50, a dobradinha.

Quem não tiver a grana, pode até passar fome – mas não morre pelos olhos ou pelas oiças: assista ao show, de grátis, em frente ao restaurante.

LIRA

Lucinha Lira e banda se apresentam hoje, 21hs, no Praia Shopping Musical.

Tribo

Hoje, 19h, tem apresentação “pocket” (ou seja, “de bolso”, nove minutinhos) do espetáculo de dança da Companhia Xamã, “Tribal tales – origens e descobertas”, direção de Cibelle Souza, com participação de Paula Braz.

No encerramento da Cientec.

serenata

Amanhã, 19h30, no Café Salão Nalva Melo, ribeyras do Putigy, tem apresentação do grupo Trisom, com o show “Uma noite em serenata”.

Atmarama

Amanhã, dentro da programação do IV Festival BNB da Música Instrumental, Alexandre Atmarama se apresenta em Fortaleza, na boa companhia do trombone de Gilberto Cabral.

Simplício

O trompetista João Simplício (Banda Sinfônica de Natal e Jerimum Jazz Band) se apresenta no próximo Som da Mata (domingo, 25, 16h30, Parque das Dunas), na companhia dos – por que não dizer? – “suspeitos de sempre”: o guitarrista Jubileu Filho, o baixista Paulo Oliveira e o baterista Rogério Pitomba.

Por R$ 1 ouça – e veja – clássicos da MPB, da salsa e do jazz.

Profano

Também no domingo – e, literalmente, reza o release – “o processo de evangelização de jovens da Igreja Católica Potiguar vai ganhar um reforço com a realização da Micareta ‘Deus é show’”.

Nossa! Se até deus aderiu à micareta, que será do Tinhoso?

Pois, o trio elétrico chama-se Óvni (não deveria ser Santíssima Trindade?), a banda Dominus vem de Beagá só pra nos catequizar com seu – acreditem – “axé católico”, e tudo, tudo (acho que inclui pular dentro das cordas), custa R$ 15.

Concentração às 15h, no Anfiteatro da UFRN.

50%

Não sei se as condições climáticas são propícias, mas quem quiser se hospedar hoje, amanhã e depois no Hotel Garbos, em Mossoró City, paga apenas metade.

25

Aproveitando suas Bodas de Prata (25 anos neste 2009 da estréia de “Marrons crepons marfins”), Marize Castro convida para aportar as paixões que nos dividem, um tinto, e o lançamento de novos versos: “Lábios-espelhos”, 5 de novembro, no Midway.

Prosa

“Agora case, sem ficar louco!”

Franz Kafka

Carta ao pai

Verso

“Morrer é nada, nem / Mais. Porém viver importa / Morte múltipla – sem / O Alívio de estar morta.”

Emily Dickinson

“Morrer por ti…”

Por que fazer xixi no banho

quinta-feira, 22 de outubro de 2009


Não, não, vocês não leram errado o título de hoje.

Xixi no banho é o que há, crianças. Xixi no banho é tudo na vida, jovens. Xixi no banho é dez, colunáveis.

Fazer xixi no banho é mais importante que a vossa eleição ano que vem, senhoras e senhores governadoráveis, senadoráveis e deputadoráveis.

Aliás, vocês, vocês mesmos, candidatos, que adoram índices e estatísticas, saibam que 73% das pessoas faz xixi no banho contra 27% que não faz. E se não faz no banho, onde faz xixi essa turma anti-ecológica? Ora, no vaso, principalmente – onde cada descarga equivale a mais ou menos 12 litros de água, o que significa 4.380 litros de água em um ano. Multiplique isso por uma população enorme fazendo xixi ao mesmo tempo e dando descarga pra lá e pra cá e vocês vão ter uma idéia do prejuízo para a natureza.

Todas essas informações estão num sítio na internet, o www.xixinobanho.org.br, claro, promovido pela SOS Mata Atlântica. Assistam junto aos seus filhos, é bem divertido. Lá, por exemplo, vocês ficam sabendo onde é o maior desperdício de água de acordo com o local onde se faz xixi (disparado, a piscina; depois a privada, e o chuveiro; fazendo xixi na chuva o desperdício é quase zero, e, numa árvore, abaixo disso).

Pra quem acha que é nojento, que pode transmitir alguma doença, o sítio informa: 95% do xixi é pura água (não água pura, claro), e o restinho é uréia e sal.

Tem ainda um vídeo bem divertido, uma animação, onde são mostradas as pessoas que fazem xixi no banho: homens, mulheres, crianças, brasileiros, gringos, nobres, plebeus, músicos, desportistas, pessoas que são metade homem metade monstro, coisas do além, lendas brasileiras, gregas, pessoas boas, pessoas não tão boas, gênios da arte, da ciência, trapezistas, amantes, pessoas de outros planetas, fenômenos do cinema.

Só não falaram dos políticos.

Ainda bem. O que eles normalmente fazem, só pode ser feito na privada, mesmo.

*

glória

Leitor assíduo desta coluna, reclama da “breve crítica, algo tímida” que saiu por aqui, segunda passada, sobre o último filme de Tarantino. Suspeita que, talvez, eu esperasse “alguma ‘esteira’ que concordasse com sua [minha] apreciação”.

Não, meu caro: a pretensa crítica saiu, mais que tímida, resumida, apenas porque não tinha mesmo muito mais a dizer sobre “Bastardos inglórios”. É filme pra se ir ao cinema e se divertir de montão, mas não é nenhuma obra-prima, nem mesmo dentro da filmografia do diretor.

glória II

Mas, como se manifestou, coloco aqui as opiniões do leitor – que assina Cláudio Santos e achou o filme “sensacional”, talvez o melhor de todos os filmes do diretor, com enredo “ótimo” e atores “idem”.

spaghetti

Aliás, em se falando nos bastardos tarantinianos, há quem sugeriu uma associação entre o filme e o “spaghetti western”, gênero cuja ponta de lança é o incomparável e inimitável Sergio Leone (e ápice, “Três homens em conflito”, safra, 1966). E, neste caso, crianças, eu sempre digo: procurem os originais, rejeitem as cópias.

spaghetti II

A propósito, em se falando em massas, o Centro di Cultura Italiana MadrelinguA festeja o Dia Internacional do Macarrão (25 de outubro) com o evento “È Ora di Pasta!” – próximo sábado, 24.

Na entrada, “fantasia de bruschettas” (a bruschetta é sempre uma fantasia, tenho dito). E, como prato principal, três massas à escolha do gourmet: al pomodoro e basilico, al pesto e a carbonara.

Na Rua Souza Machado, 1034, Tirol, a partir das 20h30. Custa apenas R$ 12. Se liguem: 3219.4669.

FUlora

Vicente Serejo foi – e já voltou – ao Ceará, onde participou das solenidades do centenário do DNOCS (para os mais novos, Departamento Nacional de Obras Contra as Secas).

Deve ter se encantado, não com a presença indefectível das inúmeras autoridades, mas com a apresentação do trabalho de restauro da coleção “Flora brasiliensis”.

Pra quem não lembra, são 15 volumes, mais de 10 mil páginas e quase 23 mil espécies catalogadas entre 1840 e 1906 por editores alemães, entre os quais o viajante Carl Friedrich Philipp von Martius.

Men at work

“Os homens aos 20 são infantis, aos 30 egocêntricos, e aos 40 nostálgicos” – de uma mulher sem barreiras etárias. E, ao ser retrucada que o que importa saber é em qual das faixas há maior risco de serem brochas, respondeu: “Em todas elas.”

Prosa

“o que é vivo não comporta cálculo”

Franz Kafka

Carta ao pai

Verso

“Se o meu Riacho é fluente / Há de secar – / Se o meu Riacho é silente / Ele é o mar –”

Emily Dickinson

“Se o meu Riacho…”

Lavanderias familiares [e II]

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Pra quem perdeu a coluna de ontem, hoje continuo contando como uma nova geração de quadrinistas decidiu lavar a roupa suja da própria família, renovando o secular gênero das histórias em quadrinhos.

Ontem, falei de “Maus”, de Art Spiegelman (publicado por aqui pela Companhia das Letras); dos livros-reportagens de Joe Sacco (“Palestina, uma nação ocupada”, “Palestina, na faixa de Gaza” e “Gorazde, a guerra na Bósnia Oriental” – todos da Conrad); e da saga familiar iraniana de Marjane Satrapi, “Persépolis” (também da Cia das Letras).

Mas, todas estas HQ aproveitam, em maior ou menor medida, o contexto histórico (o Holocausto, os conflitos no Oriente Médio, a Revolução Islâmica) como pano de fundo para seus relatos íntimos, uns mais, outros menos biográficos.

Ao contrário dos três livros que desde ontem estou tentando comentar – e recomendar pra vocês, enquanto realmente imperdíveis – mas que este enorme nariz-de-cera insiste em protelar. Pois: “Fun home: uma tragicomédia em família”, de Alison Bechdel (Conrad, 2007), “Retalhos: um romance ilustrado”, de Craig Thompson, e “Umbigo sem fundo”, de Dash Shaw (os dois últimos da Cia das Letras, 2009).

Cada um melhor do que o outro, acreditem.

“Fun home” é a história da autora e seus conflitos com a família, especialmente com a figura paterna, desde a mais tenra idade. Não é uma história comum, certo, ainda mais se levarmos em conta que a protagonista se descobre, mais tarde, lésbica, quase ao mesmo tempo em que reconhece a homossexualidade do pai.

“Retalhos” (já comentado meses atrás, aqui) é a história de um garoto tímido americano, de uma pequena cidade do interior. Os conflitos familiares continuam clássicos, intensificados pela opressão religiosa, e mais intensos emocionalmente através da figura do irmão menor – o protagonista sempre em culpa por tê-lo, em diversas ocasiões, abandonado.

Já “Umbigo sem fundo” acerta no alvo desde o início ao explorar ao máximo a primeira frase de “Anna Kariênina”, de Liev Tolstói – “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira” (na tradução de Rubens Figueiredo).

O mais fantástico dos três, foi escrito por um garoto de 23 anos, o que explica, talvez, a proximidade e intensidade com as quais são narrados (e desenhados) os fatos que envolvem a família Loony, que entra em crise quando descobre que os pais, já idosos e avós, decidem se separar (segundo Shaw, o livro nada tem de autobiográfico).

Ao exorcizar o próprio passado, ao fazer um ajuste de contas consigo mesmo e com os seus, cada um desses autores termina contrariando a frase do russo – no final das contas, todas as famílias se parecem, na felicidade e na infelicidade, também.

*

engraçadinha

Engraçada essa terra ribeyrinha, entre dunas e o sal do mar: enquanto se aprende nos – hoje antigos – bancos da universidade que o cão morder o homem não é notícia, mas o contrário, sim, os jornalistas são mais notícia do que a própria.

Perdigotos

E enquanto se promete não cuspir no prato uma vez repasto, se escarra daqui e dacolá.

Jurassic park

Na outra ponta da linha, o leitor, esse ser a cada dia mais em extinção, assiste a tudo – ou não assiste – indiferente.

Quem sabe aguardando a reinvenção da roda.

tsé-tsé

Como a maré não está pra jornalista, quem sabe hibernando no novo Instituto do Sono, a ser inaugurado em breve – talvez daqui a alguns anos as coisas melhorem.

Sexagésimo

Iaperí Araújo aproveita o título de cidadão natalense, que recebe logo mais, 18h, na Câmara Municipal, para lançar seu 60o livro, “No rastro dos cangaceiros”, edições Sebo Encarnado.

Médicos sem fronteiras

Coincidentemente, não será o único médico a receber o título: Aldo Medeiros, da UFRN, Geraldo Ferreira, presidente do SINMED e Milton Marques, reitor da UERN, também vão dormir cidadãos desta Capital.

Peixinhos

O Poticanto de logo mais à noite reapresenta Sílvia Sol interpretando canções de Júlio Lima. Sol é filha de Reinaldo Azevedo, da Banda Anos 60, e Lima é filho do finado Carlão.

No Teatro de Cultura Popular Chico Daniel (TCP), 20h, de grátis.

Prosa

“Você se equivoca por completo se acredita que, por amor e fidelidade, eu faço tudo pelos outros, e por frieza e traição, não faço nada por você e pela família.”

Franz Kafka

Carta ao pai

Verso

“Nesta Vida tão breve / De que nos dão só um gole / Quanto – quão pouco – está / Sob o nosso controle.”

Emily Dickinson

“Nesta Vida…”