– Meu irmão

2 de janeiro de 2012

Interior da Discomania, centro de Natal, por mim mesmo, tempo em que fazia fotos, batia retratos

Ontem. Ontem foi aniversário do meu irmão. Eu tenho dois irmãos e uma irmã. Mas quando me refiro a algum deles, a qualquer um dos dois, os com cromossomas X e Y, eu digo apenas assim:

– Meu irmão.

Sei lá, deve ser porque cada um deles é único e dispensa explicações, e porque, mesmo tendo eu nascido depois de todos, antes de mais nada – antes de cada um ser filho, pai, marido, profissional etc. – antes de tudo cada um deles é meu irmão.

Por isso eu digo, assim, sem citar nomes:

– Meu irmão.

Porque quando eu falo de um eu falo de todos. Porque existe em nós essa herança que vai além da genética e nos acomuna e nos comunga.

Ter e ser irmãos é tudo na vida e algo mais. Quem tem, sabe. É como ter pais da mesma idade. Ou quase da mesma idade.

Esse meu irmão nasceu dois anos antes de mim.

Reza a lenda que ele me expulsava do colo materno, ainda não acostumado a dividir carinhos.

Sem traumas. Quando crescemos, ele soube muito bem dividir carinhos, com os outros irmãos, com os “irmãos de rua” (que era como um vizinho nos definia, várias turmas de irmãos de idades diferentes, dividindo, compartilhando a rua, porque, naquele tempo, lugar de criança era na rua), com os amigos em comum, com as namoradas, amores, simpatias.

Esse meu irmão é um dos melhores contadores de piada que conheço. Saca aquele tipo de piada que nos desperta um sentimento muito mais de alegria e felicidade suprema do que apenas de puro e simples riso?

Pois.

Mas trauma mesmo eu tive quando – por esses mistérios que separam garotos quase da mesma idade em grupos diferentes – voltando a pé pra casa dei de cara com meu irmão numa nova turma: era a época dos blocos de carnaval e ele estava entrando em um. Eu não tinha idade pra isso, e fiquei de fora. Tão triste quedei que cruzei a rua pra não encarar de frente o que enxerguei como uma brutal separação. Estávamos em grupos diferentes. Eu era criança, ele adolescente. Ele começaria a sair à noite. Sem mim. Ele começaria, discretamente, a beber. Sem mim. Ele começaria a conhecer novas pessoas. Sem mim. E eu no máximo seria “o irmão de fulano” – mas sem a importância e a realeza que tem o parentesco quando antecedido pelo pronome possessivo.

– Meu irmão.

O tempo, senhor da razão etc. apararia essas arestas e logo estaríamos juntos, dividindo noites, bares e ruas. Comigo. Porque, no quesito livros & discos, sempre compartilhamos os mesmos gostos. Desde sempre. Comigo.

Então, um dia antes do seu aniversário, ontem, antontem, sei lá, ele me enviou um email, intitulado “lembrança-luz”. Falava de um disco que dei de presente pra ele, Long distance voyager, do Moody Blues. A capa, uma ilustração representando um teatro de bonecos inglês ao ar livre, toda em tons azuis. Era um disco azul. E, lá em casa, na nossa casa da infância e adolescência, havia um quarto “de som”: um quarto usado apenas pra ouvir música. Um tocadiscos Gradiente. Um amplificador CCE. Tape deck Akai. Caixas Polyvox. Pilhas de revista Pop e Somtrês e algumas americanas de surf. Almofadas. Colagens espalhadas. E o piso do quarto todo azul.

Como era mágico esse azul em nossa casa.

Ele escreveu sobre esses azuis e concluiu:

– Gosto de me lembrar disso…

– Meu irmão.

Também eu gosto de me lembrar disso, de recordar tudo isso, de ter certezas na vida. De ter irmãos.

E se escrevo tudo isso, às vezes um pouco confuso, às vezes um pouco certeiro, não é apenas porque quero me desculpar por ter faltado ao seu aniversário estando tão próximo e sem desculpas de viagem, voyagers, distâncias etc. É porque gosto de me lembrar disso.

Gosto de lembrar quando, mais de uma década atrás, eu fui fazer uma importante e simbólica mudança, para mim, deixar o apartamento-casa em San Lorenzo, Roma, para o Viale di Donna Olimpia, Monteverde, Roma, e fui até uma loja de discos, a Disfunzioni musicali, e comprei, pra ele, o Watch, da Manfred Mann’s Earth Band.

Gosto de lembrar quando ele comprou o disco de O Peso. E o dos Novos Baianos. Ou quando eu trouxe de uma viagem o My life in the bush of ghosts. Ou como foi importante, num verão, ouvirmos juntos o Breakfast in America. Ou “School” no toca-fitas do carro do nosso tio, com o nosso primo, uma tarde. Uma única tarde.

Ou como uma vez, eu – ou ele, que tanto faz – escrevemos – ou citamos, que tanto faz – que sempre haverá em nós esse dito, não-dito. Esses silêncios íntimos.

Gosto de lembrar quando, em Natal, noutro ano e ocasião, propositadamente, por razões que só interessam a nós dois, comprei um livro de poesia russa, porque não queria, naquele aniversário, dar discos.

Gosto de lembrar de algumas fotos: eu e ele jogando futebol na praia; eu e ele no jardim de casa com um barquinho a vela.

Gosto de lembrar quando, miraculosamente, fizemos o trajeto Pirangi-Ponta Negra-Pirangi num barquinho a vela, de verdade, maior do que aquele da foto.

Ou como, uma vez, no metrô de Nova York, uma solidão dos diabos, enxerguei entre os bancos vazios alguém incrível e magicamente parecido com esse meu irmão como era quando adolescente: cabelos revoltos, de uma brancura e uma magreza poética, um certo ar de desajeitamento e alheamento, um olhar de poeta que ele sempre foi.

Um olhar de irmão que ele sempre é.

16 Já Comentaram para “– Meu irmão”

  1. Paulo Procópio disse:

    Legal, Mario Ivo.

  2. sophia disse:

    Achei de uma doçura tão grande as lembranças fraternas e os sentimentos delas decorrentes que me emocionei.
    Lindo, Mário Ivo.
    Abs

  3. FFreitas disse:

    Pa reiá mei mundo de emoção e amizade… de brothers!

  4. Henrique Wanderley disse:

    Maravilha meu amigo, é emocionante essa irmandade,
    parabéns!

  5. San. Jr. disse:

    A verdadeira leveza de ser Família! Lindo!

  6. Gerson de Souza Barbosa disse:

    Sometimes I feel … like screaming!!!

  7. pedropereiranatal disse:

    Irmão é preciosidade, pois não pedimos não compramos nem conquistamos ele nasce.
    É como uma planta temos que regar por toda VIDA.

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  9. Jarbas Martins disse:

    belo ! mano a mano.

  10. Marcelo Morais disse:

    Lembro demais quando conheci Carito. Foi na Velvet Discos, e por coincidência, vocês se encontraram por lá nesse dia.

    Saquei na hora que eram irmãos.

    Muito legal o texto!

  11. Orlando Venâncio disse:

    Mário Ivo, só quem tem irmãos (ãs) e com esses (as) conviveu intensamente, sabe que essa doçura poética por meio da qual você traduz a sua relação de irmandade com Carito, é verdadeira. Parabéns, não é fácil explicitar publicamente sentimentos tão verdadeiros. Um abração!

    Orlando

  12. Emocionante texto, porque é verdadeiro e íntimo, até nos silêncios. Cheiro nos dois irmãos.

  13. MEmilia Wanderley disse:

    Lindão,quanto mais poético vc. é, mais verdadeiro.

  14. soraia disse:

    pessoas como você são especiais, mesmo quando fala do eu inclui o outro: amor fraterno é universal, é assim em qualquer língua ou nação. vc sempre deixa um cantinho para os seus leitores. rs. gracias.

  15. joao, o sograo de carito disse:

    Parabéns , vc me levou a uma torrene de lagrimas, tanto por você como por seu irmão. Você tem uma família marilhosa e gosto de particiar por entermédio do seu irmão Carito.
    Do Sogrão de Carito
    Abraço
    e muito sucesso.

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